Amarração
de Mar Ferreira
Não te vou oferecer chocolates nem bilhetes com corações. Vou deixar as flores de parte, pois em breve teremos tempo para todos os encontros românticos que desejarmos. Estas velas não são para melhorar a atmosfera da sala. A minha nudez não é para resultar numa noite de prazer mútuo; pelo menos, por agora.
Ligo-me ao meu interior facilmente, de tantas vezes que já lá fui, e trago de mim a paixão mais pura. Penso em ti enquanto gordas gotas vermelhas escorrem desde as minhas veias para o soalho. No meio do círculo, encontra-se um molho de cabelos teus, roubados da escova que tinhas na tua casa de banho. Já há um tempo que perderam o cheiro, o que faz com que não me custe demolhá-los no chá de rosas. Não está muito quente, como preferes.
Oiço a campainha a tocar, mas sabia que estavas perto muito antes disso. Não tardarei a encontrar-te à porta, por isso não me apresso. De qualquer forma, sei que não vais levar a mal. A compreensão é uma das tuas melhores qualidades.
Aproximo de mim o bule, deixando que o calor me cubra as mãos. A ponta dos meus dedos toca na água ao pegar no coador, que traz consigo a peça de roupa que procuro. Tingida pelo chá, nem parece algo que usei no dia anterior — algo que absorveu os meus sucos enquanto pensava em ti.
Está na hora de me vestir. Escolhi o meu vestido azul, que sei ser a tua cor predileta. Em instantes, vou servir-te uma chávena, perguntando se queres açúcar, mesmo que saiba que dirás que não. Vais agradecer-me pela hospitalidade, enquanto molhas um biscoito no líquido translúcido.
— Este chá é bom. É de quê?
De amor.
Originalmente publicado em:
https://issuu.com/aefcsh.nova/docs/nova_em_folha_fevereiro_mar_o_25_
SOBRE A AUTORA
Mar Ferreira
Mar Ferreira, nascida em 2003, é licenciada em Ciências da Comunicação pela NOVA FCSH, decidindo seguir a sua paixão pela área dos livros através de um mestrado em Edição de Texto na mesma faculdade. Gosta do mórbido, do romântico e dos seus gatos.







