Sussurros

de Teresa F.

Como desejo fazer o mal. Sentir-me feliz pela sensação de alívio no corpo e na mente. Estar um dia em frente ao Criador e confessar: Sim, fiz e gostei! Abraçar o ódio com amor e aceitar este companheiro de viagem como um amigo de aventuras, um irmão gémeo que se obriga a esconder nos meus mais fundos pensamentos, que fala comigo à noite, no escuro, no silêncio da solidão.

Olá, minha querida, sussurra-me ao ouvido. Os seus conselhos perseguem-me, torturam-me a vontade e aliciam-me o desejo. Acolherei as consequências com as devidas cerimónias e serão um consolo para a minha alma, por fim, desafogada.

O chá de limão que a minha sogra me traz, como calmante, é amargo de gosto e de espírito. Tenho vontade de lho mandar à cara enquanto lhe grito: NÃO GOSTO DESTE CHÁ! NUNCA GOSTEI!

Todos dizem que passará. Mas que sabem eles?

O meu marido é um farrapo de homem. Sempre foi. Agora, bem reconheço as suas fraquezas. Nunca precisei tão pouco dele. Nada! Nada! Nada dele preciso.

Procura-me ainda, de vez em vez, à noite, mas aí já estou só, já estou envolta com um outro que me dá mais prazer. Já me estou a oferecer por completo a uma ideia, a um sonho maligno que me satisfaz, que me agrada em tudo aquilo que me dá.

O meu marido insiste e eu não reajo. Penetra-me à mesma, por trás, e eu deixo-o ser o pequeno macho reles e medíocre que é. Não durará muito. Nem dou sequer por ele acabar. O meu êxtase é outro, em devaneios fantásticos, fantasias disformes e cruéis. Na minha cabeça, sinto gritos abafados pela impotência da moral.

Onde está a minha boina?, perguntou-me de manhã, antes de sair.

Não sei. Toma conta das tuas coisas, respondi.

Hoje, quando a minha sogra me veio visitar, e me perguntou novamente Então, como estás?, com aquela voz aguda, aquela voz que me irrita só de pensar nela, já tinha escolhido acabar com este mundo paralelo. Como a odeio. A ela e a estas perguntas idiotas. Decidiram todos que a vida continua, e eu decido-me, então, pelo lado do mal. Vivam vocês a vida mesquinha que merecem.

Sei quem vai ser a vítima do meu desejo. E não me interessa a família dele. A mulher e os filhos que sofram, não me importa. Sei onde o encontrar, conheço os seus hábitos. Quantas noites passei a planear este glorioso dia.

Vou-me deitar, Laura. Acorda-me às quatro, peço eu à minha sogra.

Começa aqui!

O meu marido, transtornado, chega a casa.

O carro está todo amolgado à frente. E tem sangue no para-choques, disse preocupado.

A sério?, respondi eu.

Bem eu sabia. Roubei-lhe o carro à hora de almoço. Aquele imbecil almoça sempre sozinho no escritório para poupar dinheiro, tão avarento na vida como no amor.

Tirei o carro da garagem e fui diretamente ao Café das Torres, onde a minha vítima costuma beber o café. Arrumei o carro debaixo do plátano, em frente à mercearia, e só tive de esperar que ele saísse.

Saiu a rir, com um cigarro na boca e de chave na mão. Quando atravessou a estrada, acelerei ao máximo e apanhei-o de frente. Nem notou o que aconteceu. Ainda o arrastei por uns metros até o corpo ficar imóvel na estrada. Só tenho pena de não poder parar para ver se estava morto. Depois o saberei. Se Deus ainda me ouvir, haverá de estar.

Aqueles que assistiram só se lembrarão do carro do meu marido e de um vulto com um casaco preto e uma boina basca. Que palerma. Quantas vezes lhe disse: isso já não se usa, homem! Nunca ouviu. Muito ele gostava da boina. E todos sabem que ele é o único a usar uma assim.

Não fui perseguida por ninguém. Ficaram todos em choque. Fui pela azinhaga para ninguém me ver e estacionei o carro na garagem novamente. Depois, foi só voltar a casa. A velha dormia, como sempre. Não notou que eu saí.

Batem à porta. É a policia. Vêm procurar o meu marido.

O atropelado morreu. Alguém viu o carro e contou exatamente aquilo que eu planeara. Sendo a vítima o homem que, bêbedo, matou o nosso filho, o caso tornou-se fácil. Um pai que não aguentou o desgosto e a fraca pena atribuída pelos tribunais decidiu fazer justiça por própria mão. Quem não o faria?

Ao chegar a casa, depois de voltar da esquadra, rezei.

Deus glorioso! Só erraste ao arrancar o meu filho à vida. E fizeste de mim uma pecadora.

Deitei-me e adormeci.

Calma.

Olá, minha querida…