Boa Companhia

de José Maria Covas

Walter meditava profundamente, em preparação para o que viria a seguir. Ao soar dos sinos, as portas da cripta abriram-se. Walter abriu os olhos, ergueu-se e encarou Gustavo, o diretor universitário. Sem falar, o escolhido passou por ele e tomou resignadamente o seu lugar na capela, à frente dos estimados professores e colegas.

Como planeado, a procissão saiu do pátio e desceu a colina. No escuro, a rua tornou-se mais estreita, e as faculdades transformaram-se numa muralha de pedra para impedir a fuga do percurso delineado. Quando atravessaram o cais, a marcha parou na praia, onde a terra firme acabava e o mar flutuante começava.

Uma melodia começou a ser entoada por todos os presentes, com a exceção de Walter. O tom afugentou de seguida as nuvens e fez com que as estrelas começassem a girar à volta de uma Lua cada vez mais brilhante. Os raios de energia canalizada formaram, nesse momento, uma linha impermanente na superfície, perturbando o mar calmo. As águas agitadas, por instantes, fizeram do traço uma espiral, antes de a luz ser consumida no centro do vórtice. Foi então que algo surgiu do fundo do redemoinho.

Era qualquer coisa amorfa e viscosa, mas, ao aproximar-se da costa, o ser solidificou-se e tomou a aparência de Walter, parando depois à frente dele. Fitou-o pensativamente antes de interromper o súbito silêncio da multidão:

— Troca?

O diretor Gustavo respondeu alegremente:

— Sim, um aluno com péssimo desempenho académico é o preço a pagar pelo sucesso da nossa universidade!

Esta falácia fez com que Walter finalmente retorquisse:

— Isso não me parece muito justo.

O comentário atiçou Gustavo e fê-lo vociferar:

— É por estas opiniões despropositadas que se encontra nesta situação! Talvez agora se arrependa de não ter dado a devida atenção aos seus estudos!

Walter aproximou-se de Gustavo e repostou:

— Aí é que se engana. Sempre tive muito prazer em aprender. Até tive a oportunidade única de ser ensinado por outros professores… do outro lado.

Repentinamente, a comitiva ficou paralisada, enquanto a figura assumia a aparência de Gustavo. Este conseguiu apenas dizer:

— O que vem a ser isto?

Walter desviou-se, para que os presentes vissem outras criaturas a emergir do portal aquático com as suas caras, e declarou:

— Esta é a cobrança da vossa dívida atual! Apesar do contínuo apoio destes mecenas, a taxa de bons alunos nesta universidade é para lá de insatisfatória!

Dito isto, velhos e novos tentaram fugir, mas foram apanhados e puxados para dentro do turbilhão de água gélida pelos seus sósias. Após as ondas engolirem os gritos do diretor, Walter contemplou a praia deserta, satisfeito com o seu desempenho escolar.

 

SOBRE O AUTOR

José Maria Covas

José Maria Covas, desde que nasceu a 26 de setembro de 1998, sempre tentou compreender a realidade em seu redor e contribuir para a sua evolução. Licenciou-se em Ciências Biomédicas na Universidade de Coventry e encontra-se a realizar o mestrado em Medicina Regenerativa na Faculdade de Medicina e Veterinária da Universidade de Edimburgo. Os seus poemas, contos e guiões conjugam o mistério e o estranho da literatura e cinema com o ocultismo e surrealismo das suas viagens, criando, no processo, o seu próprio universo artístico, que eternamente explora a condição humana.