Cheiro a Velho

de Pedro Lucas Martins

O n.º 8 da Rua das Margaridas estava trancado há demasiado tempo. Notei-o assim que passei a porta e tive de suster a respiração.

O cheiro a velho entranhava-se-me nas narinas, na boca e na língua. Tornava-se sabor nas minhas papilas gustativas  — sabor a velho.

Contive um pequeno vómito.

Tinha lido em algum lado que aquele odor particular era resultado de mudanças químicas, de bactérias na pele ou algo parecido. Mas nada disso me distraía do que aquele cheiro era na verdade. Órgãos a definharem, um corpo vivo em decomposição, por mais talco ou Old Spice que lhe despejassem em cima. Era literalmente o cheiro que a morte tinha.

Já o conhecia de certos prédios, casas ou lares de idosos, a bafienta lembrança de que o ceifeiro ali rondava. Mais perto quanto mais forte o cheiro fosse. Nesta casa, porém, o cheiro era uma presença física. A morte era mais inquilina do que visita.

Toquei no interruptor da luz, só por descargo de consciência, e fechei a porta atrás de mim. Mantê-la aberta, curiosamente, não ajudava. Nem na visibilidade nem no arejamento. Além disso, havia que pensar no trabalho; as coisas não se faziam sozinhas. Era concentrar-me em fazer uma primeira análise, antes de começar a inventariar o recheio, e pôr-me a andar assim que possível. Talvez também houvesse ali alguma pista sobre a razão de estar abandonada há tanto tempo, sem dono nem registo que se encontrasse, e de ninguém ter reparado.  As teorias, na Câmara, já eram muitas.

Passei do corredor para a cozinha, e o cheiro veio comigo. Vi o fogão sem uso, as panelas amontoadas, os armários fora das dobradiças encrustadas em madeira apodrecida. Nada se ouvia. Nada se mexia. O pó pairava em silêncio em lâminas de luz, esgueirando-se para a divisão por persianas desalinhadas.

Dei então meia-volta para sair. Ao lado, a poucos metros, havia um quarto. Uma cama feita, uma colcha de croché amarelada, um roupeiro antigo. Nem pensar em abri-lo, adverti-me, apesar de não conseguir imaginar como é que o odor a mofo podia piorar.

Mas consegui quando cheguei à sala. O cheiro, ali, era mais intenso do que na casa toda. Opressivo, sufocante.

Mas de onde é que ele vinha?

Levei o antebraço à boca e ao nariz e apercebi-me, para meu espanto, que o braço tresandava ao mesmo odor. Já se teria este entranhado na minha roupa? Em tão pouco tempo? Não podiam ter passado mais de dez minutos.

Voltei a encostar o braço ao nariz, mas desta vez percebi que as costas da minha mão estavam impregnadas. Era eu! Não era só a casa! Era eu!

Esfreguei a pele para tentar livrar-me do cheiro, mas a fricção não fez mais do que intensificá-lo. Cheiro a velho esfoliado.

Comecei a ficar tonto. Tinha de sair dali. Senti um cansaço extremo a abater-se sobre mim, como se houvesse uma fuga de gás, um ar venenoso e invisível que se infiltrava nos poros e pulmões. Invisível, mas não inodoro. Longe de inodoro. Dei dois passos em direcção ao corredor, mas as pernas perderam as forças. Felizmente, havia uma poltrona — ou talvez fosse uma senhorinha — que me amparou a queda. Caí no estofo e afundei-me nele. No tecido, no cheiro, na escuridão que ele trazia. Tive a horrível sensação de que me estava a fundir com o forro de padrões floridos.

Ainda pude olhar em frente, para o quadro do outro lado da sala. O que dizia «Lar, Doce Lar», por baixo de duas figuras de mão dada. Olhei antes de fechar os olhos, mas já não tenho a certeza se o vulto negro e anquilosado que vi, a sair do canto junto ao quadro, não era apenas a escuridão a tomar conta de tudo. De qualquer modo, foi essa a última coisa que vi. Mas o cheiro — o cheiro a velho — esse ainda o senti à minha volta, insuportavelmente próximo, antes de o escuro se tornar permanente.

 

SOBRE O AUTOR

Pedro Lucas Martins

Pedro Lucas Martins nasceu em 1983, em Lisboa. Desde aí, não se lembra de uma altura em que não gostasse de terror.

Com estes gostos, preocupou toda a gente à sua volta. Naturalmente, insistiu e venceu-os pelo cansaço.

Agora, entre outras coisas, escreve e edita ficção de terror, tendo sido esta reconhecida com o Prémio António de Macedo (2018) e com o Prémio Adamastor (2020).