Cianeto

de Ricardo Figueira

A veia de melómano nunca deixou Utombiwi ficar mal. A música que saía daquele carro de matrícula estrangeira, parado há mais de uma hora no parque sem que ninguém tivesse saído, era a Gymnopédie No.1 de Erik Satie.

Lenta e dolorosa.

O casal parecia estar a dormir, mas, ao abrir a porta, Utombiwi percebeu que era muito mais grave. Encostou o dedo ao pescoço de ambos para confirmar o que já lhe parecia: estavam frios, sem pulsação. Encostados um ao outro, tinham uma espuma branca a sair-lhes pela boca. Caído no chão, um pequeno frasco.

Imediatamente, recuou e deu o alerta pelo rádio.

Luzes azuis inebriantes inundaram o parque. Homens e mulheres com grandes fatos herméticos brancos passavam de um lado para o outro. Alguém tirava fotos.

As mesmas luzes azuis continuavam a piscar, mas agora Utombiwi estava num bar e a música era outra. Música de dança, com batidas fortes. Estava sentado à mesa com o mesmo casal que vira morto no carro momentos antes. Brindaram e beberam, de um trago, os shots de cianeto.

— Isto é um sonho, não é? Meu ou vosso?

O casal riu à gargalhada.

— Meu caro Utombiwi — disse o homem —, na vida real, isto que acabámos de beber mata em poucos minutos. Logo, é um sonho. Segundo ponto: tanto eu como a Marie estamos mortos. Logo, não podemos estar a sonhar. Os mortos dormem sem sonhos. Por isso, conclusão lógica: é o teu sonho. Agora, olha à tua volta.

As outras mesas estavam ocupadas com as personagens da Alice no País das Maravilhas. O coelho estava atrasado e saiu disparado do sonho.

— Porquê morrer em Lisboa?

— Porque fomos felizes aqui.

— Mas porquê querer morrer?

— Eu ia morrer, fosse como fosse, dentro de poucas semanas — disse a mulher.

— Assim, fomos juntos para o outro lado — acrescentou o homem.

Utombiwi ficou a pensar que, por muito madrasta que a vida lhe tivesse sido, era afinal de contas um homem feliz, em comparação com a miséria daqueles dois. Ou talvez ir com a pessoa amada para o lado de lá fosse a felicidade suprema. Já não sabia nada.

— Mais uma rodada. Agora, pago eu.

No parque de estacionamento, alguém tentava acordar Utombiwi.

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945

SOBRE O AUTOR

Ricardo Figueira

Ricardo Figueira nasceu em Lisboa e é jornalista do canal Euronews, sediado em Lyon (França), onde vive desde 2003, depois de um primeiro período entre 1999 e 2001, e de ter também trabalhado para a RTP. Assina um espaço semanal de opinião na Rádio Alfa. É igualmente fotógrafo, tendo participado em várias exposições e projeções, tanto individuais como coletivas, em vários países, incluindo uma recolha de retratos de portugueses e lusodescendentes residentes em França. É coautor e corealizador da curta-metragem Motorphobia, exibida no Fantasporto em 2016. O confinamento de 2020 fê-lo retomar o gosto pela escrita. É autor de vários contos e terminou recentemente o seu primeiro romance, Depois da Bomba, que espera ver publicado durante o ano de 2022.