Cobrança

de José Maria Covas

Adelinda fechou a porta da cave, acendeu a luz e pôs-se ao trabalho. Diante de si, estava um homem das Finanças, pendendo do teto por correntes. As grilhetas eram tão fortes que talvez tivessem partido as articulações — das mãos e dos pés — que não tinham sido trabalhadas pelo martelo da carne. Era bom que assim fosse para não fugir.

— Tem vindo o senhor cá há anos para se alimentar de todas as minhas poupanças, não é? Hoje, mudamos um bocadinho as coisas.

Adelinda pegou no machado que usava para cortar lenha no quintal e decepou ambas as mãos do ganancioso, seguidas dos pés. Depois, espetou agulhas nos cepos para que o sangue vertesse para diversos frascos de geleia. A seguir, como se fatiasse fiambre, aparou a barriga oval para onde fora todo o dinheiro roubado. Com cuidado. Lentamente.

Só após muitas horas e muitos gritos é que Adelinda usou uma colher de gelados para extrair os olhos, ajustando-os no topo do prato de carne que tinha o sangue como cobertura. Colocou o saque no forno de barro para ser o jantar dos seus animais. E eventualmente o seu.

Subiu então as escadas para ver televisão, enquanto esperava que a carne estivesse no ponto. E ao fechar a porta, com um sorriso, disse para o homem lá em baixo:

— Amanhã, há mais.

 

SOBRE O AUTOR

José Maria Covas

José Maria Covas, desde que nasceu a 26 de setembro de 1998, sempre tentou compreender a realidade em seu redor e contribuir para a sua evolução. Licenciou-se em Ciências Biomédicas na Universidade de Coventry e encontra-se a realizar o mestrado em Medicina Regenerativa na Faculdade de Medicina e Veterinária da Universidade de Edimburgo. Os seus poemas, contos e guiões conjugam o mistério e o estranho da literatura e cinema com o ocultismo e surrealismo das suas viagens, criando, no processo, o seu próprio universo artístico, que eternamente explora a condição humana.