Diagnóstico

de Liliana Duarte Pereira

 

Lígia, Lígia. Ser execrável. Ontem, lá foste tu pela 25.ª vez ao centro de saúde este ano e, como não podia deixar de ser, aperaltaste-te com aquele vestido branco tão desadequado à tua idade. Será que ninguém faz o favor de te dizer que é transparente? Seríamos todos poupados a visões deploráveis.

O médico despachou-te em três tempos. Agora, sofres de apneia do sono, mas, para ti, era mau-olhado. Com certeza, alguma bruxa te tinha visto. Estavas a ir bem, Lígia. Se isto tivesse sido um jogo, estavas «quente, quente».

Não posso deixar de dizer o quanto admiro a criatividade dos médicos quando não fazem a mínima ideia do que se passa. É mais ou menos como na meteorologia. Pode estar sol, frio ou chuva. Pode ser apneia do sono, varizes ou uma hérnia discal. Mas sim, apertar o teu pescoço quase até te esganar é sem dúvida apneia do sono.

Infligia-te sempre o mesmo sonho. Estavas deitada e vias-me de costas junto aos pés da cama, com uma pequena boneca na minha mão esquerda. Não estava suficientemente visível para me reconheceres, mas tive o cuidado de me apresentar com a minha saia cor de ameixa, deixando à vista as minhas longas pernas, que tanto detestavas, ainda que o teu dever fosse manter o foco nas minhas competências.

O sonho fica por aqui. Faço com que acordes atordoada e a suar em bica, com a boca seca, quase sem saberes quem és.

Comecei de mansinho, com picadelas pequenas. Mas logo me adiantei para que ficasses coberta de hematomas, desde o couro cabeludo até às plantas dos pés. As fracturas no braço direito e no fémur foram atribuídas ao sonambulismo. Também ocorreram algumas interferências que te deixaram meio surda.

Hoje, foi o meu último dia lá no trabalho. A tua vontade de me ver pelas costas era tão grande que pouco ou nada conseguias disfarçar. Quando me viste entrar para a casa de banho, aquele teu sonho estranho transformou-se no teu pior pesadelo. Sim, trouxe a saia cor de ameixa e a pequena boneca.

O tempo de reacção foi curto. Quando saí, estavas caída no corredor com as pessoas desorganizadas a tentar acudir. Segundo o relatório do médico-legista, o que te fez abalar para a quinta dos pés juntos foi um enfarte do miocárdio fulminante. Foi mais ou menos isso, deixei o coração para o fim. Foi nele que cravei o último alfinete.

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945

SOBRE A AUTORA

Liliana Duarte Pereira

Liliana Duarte Pereira, nascida a 30 de junho de 1986, é licenciada em Política Social através do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Sempre quis preparar os mortos para os seus funerais, mas não vingou. Tem fobia a pessoas falecidas e a portas entreabertas. Gosta de animais, de fazer doces, de rir de coisas mórbidas e de escrever.

Integrou as antologias Sangue Novo (2021), Rua Bruxedo (2022) e Sangue (2022).

Venceu o Prémio Adamastor de Ficção Fantástica em Conto (2022) com «O Manicómio das Mães», da antologia Sangue Novo.

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