Ecossistema

de Ana Catarina Rodrigues

BZZT. BZZT. BZZT. BZZT. As luzes fluorescentes zumbem e por momentos a rapariga imagina varejeiras, verdes e gordas, a voar lentamente à volta e à volta e à volta e à volta da luz. Olha para a parede e olhos esbugalhados fitam-na de volta. Pisca, pisca, pisca, e os olhos desaparecem.

O pessoal que explora o Ártico, a Antártida ou sítios com neve usa óculos escuros para não enlouquecer no meio de tanto branco. 

As paredes, o teto e o chão são brancos, criando uma ilusão ótica onde as curvas não se conseguem ver, tornando o edifício num corredor interminável onde todos se perdem. Todos, exceto-

Consegue ouvir o tac tac tac das teclas do computador, mas, se olhar diretamente para a figura à secretária, não encontrará nada no lugar. Não, não é essa a palavra correta. «Algo» talvez seja a palavra mais precisa. «Algo» vai estar a observá-la, como ela observará «algo». Algo com o delinear familiar de um corpo, mas com algo… errado. Tenta focar no humanoide. Cobre enche-lhe os pulmões, sufocando-a. Levanta a mão para limpar o sangue do nariz e só assim repara que estas tremem, com o dedo mindinho partido e a contorcer-se; a dobrar, a dobrar, a dobrar, a dobrar, até a ponta tocar no pulso-

Desvia a cara da criatura, concentrando-se num ponto no chão. As mãos, embora continuem a tremer, não estão partidas, e o cheiro a cobre desapareceu. Cuidadosamente, toca no nariz. Não está a sangrar. Segura a cabeça nas mãos. Inspira. Expira. Inspira. Expira. Inspira. Expira. Inspira. Expira. Inspira. Expira. Inspira. Expira.  Inspira. Expira.

O metal da cadeira aquece quando a rapariga o agarra, com os nós dos dedos brancos e palma escorregadia. Com pernas trémulas, dirige-se à máquina de comida.

Espera, desde quando é que isto está aqui?

Olha em volta, fugindo das outras figuras na sala de espera.

Quando é que estas… pessoas…? São pessoas? 

As moedas tilintam nas mãos, os seus olhos fixam-se no pacote de m&m’ s.

De onde é que vieram as moedas?! 

TLAC.

O estrondo parece ecoar pela sala. A rapariga fecha os olhos, o suor acaricia-lhe a testa, a bochecha, o queixo antes de formar uma poça no chão, uma poça que a rapariga deseja ser um rio para escapar.

Os chocolates são doces na sua boca. Permite-se fechar os olhos, suspirando lentamente. O coração abranda. Trinca o chocolate-

— AAAAAAAAAAAAAAAH — grita e cospe para o chão.

O amendoim estaladiço que esperava foi substituído pela consistência de uma borracha. O sabor na boca explodiu, como se tivesse trincado um tomate, uma mistura de leite fora de prazo com todo o tipo de fruta podre. Deixa cair o saco dos doces de onde rastejam vermes, em vez de ovais coloridos.

A rapariga ajoelha-se e vomita, vomita, vomita, vomita. Ninguém a vem ajudar.

Onde é que estou? Porque é que estou aqui? Onde é o aqui? O que são estas coisas? Quem sou eu? Qual é o meu nome? Onde é que estou? Porque é que estou aqui? Onde é o aqui? O que são estas coisas? Quem sou eu? Qual é o meu nome? Onde é que estou? Porque é que estou aqui? Onde é o aqui? O que são estas coisas? Quem sou eu? Qual é o meu nome? Onde é que estou? Porque é que estou aqui? Onde é o aqui? O que são estas coisas? Quem sou eu? Qual é o meu nome? Qual é o meu nome? Qual é o meu nome? Qual é o meu nome? Qual é o meu nome? Qual é o meu nome?

— Carolina Araújo?

A enfermeira no centro da sala parece normal, no entanto, em vez de confortar a rapariga de pernas trémulas, apenas reforça a estranheza do lugar.

Como é que não se está a passar? Qual destas coisas é a Carolina?

— Carolina Araújo, não me ouviu?

A enfermeira está a andar na sua direção.

— Esse não é o meu nome.

— Não é?

— Não.

— Então, como é que se chama?

O sorriso que lhe apresenta é demasiado largo. De relance, não seria notável, contudo, estando próxima, lembra a «Carolina» um crocodilo.

— … Não sei.

O sorriso alarga outra vez.

— Mas eu sei que é a Carolina. É por isso que está aqui. Venha. O médico está à sua espera.

Se não a seguisse, tinha-me perdido.

A porta é da mesma cor que a parede. Não tem placa com o nome do médico, nem outras marcas distintivas. Se «Carolina» não estivesse acompanhada, teria continuado a andar julgando ser parede.

— Doutor, a Carolina Araújo está aqui.

Quando a porta se abre, é cumprimentada por duas asas enormes, que se estendem sobre ela como sombras. Lentamente, a figura vai-se virando, primeiro de costas, mostrando as asas e uma bata, acabando por revelar o focinho de um abutre.

É como se os pés de «Carolina» estivessem pregados ao chão. Por mais que ela suplique às pernas que se mexam, continua estática, o coração dela como um coelho a refugiar-se na toca que é a sua garganta.

A ave solta um brado que ecoa nos seus ossos, fazendo o cobre voltar.

O abutre amolga a parede quando se atira à rapariga, que se desvia no último instante, afastando-se da porta.

Os sapatos colidem com o chão, os pulmões parecem estar prestes a rebentar, os olhos lacrimejam, os ouvidos enchem-se com o som da respiração e dos gritos do abutre que a persegue. Mas o corredor é infinito. Mais do que uma vez, esbarra contra uma parede ou vai contra uma das criaturas no corredor. Não importa, contudo, o quanto corre, o necrófago permanece atrás dela.

Quando a rapariga começa a abrandar e a aceitar o seu destino, surge uma porta cinzenta à sua frente. Sem hesitar, manda-se contra ela.

O local em que se encontra agora é diferente. Nem as paredes nem o chão são o branco estéril que lhe magoava os olhos. Em vez disso, o quarto está coberto de plantas, vidro e papéis. No centro, está uma cama. E nessa cama, jaz um cadáver.

Já deve estar aqui há um bom tempo.

O corpo está inchado, azul e cinzento. Os olhos já foram comidos. No seu lugar, nascem cogumelos longos e brancos. O torso é tapado por um cobertor de musgo, mais cogumelos, trepadeiras e larvas. Um ecossistema de decadência.

A rapariga aproxima-se da cidade das larvas. Dá-lhe a mão e sorri.

 

SOBRE A AUTORA

Ana Catarina Rodrigues

Nasceu a 18 de julho de 1999.

O seu interesse pela escrita emergiu em simultâneo com a afinidade pela leitura. Inicialmente mais focada na escrita de poesia, a curiosidade pelo género de terror foi despertada pelos programas Courage the Cowardly Dog e The Grim Adventures of Billy & Mandy, evoluindo depois para slashers e filmes mais virados para o terror psicológico, o género que a fascina mais.

É licenciada em Artes e Humanidades e, de momento, completa o mestrado em Ciências da Documentação e Informação na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.