Milagre

de José Maria Covas

Não! Não!, exclamava ao ver-me ao espelho. A sua superfície refletora destruíra o aconchego proporcionado pelo sonho idílico da noite anterior. A realidade dura confrontava-me, atormentando-me cada vez mais à medida que o tempo deixava as suas marcas no meu corpo.

Em vez de estar diante da bela figura humana retratada na minha tela, deparava-se-me um monstro disforme, composto por braços e pernas de criança fragilmente ligados a um balão. Esta esfera, capaz de rebentar a qualquer instante se um pionés perfurasse a fina barreira de pele que a cobria, é prova inequívoca do meu vício.

Tão preocupado estive com o bem-estar da minha obra de arte, um rosto jamais imaginado, que nunca saí de casa, acordando, pintando, passando fome durante o dia e comendo desalmadamente antes de me ir deitar, sem prestar a devida atenção à metamorfose do meu ser.

Só havia uma maneira, agora, de solucionar tal hedionda criação. Ajoelhei-me diante do espelho, juntei as mãos, fechei os olhos e entoei convictamente a oração a São João Bosco, ensinada pela minha mãe para emergências como esta. Após alguns segundos sem nada acontecer, olhei à minha volta e vi uma mão a atravessar o vidro do espelho, como um véu a separar o meu mundo da resposta às minhas preces. A luz da vela apagou-se e, quando regressou, uma figura imponente com batina e capelo estava à minha frente.

Hmmm, proferiu, enquanto me ajudava a levantar. Tire a camisa e deite-se para melhor o examinar.

É muito grave?, murmurei.

Já vi muitas profanações dos desígnios divinos, declarou o santo, juiz das suas transgressões. Mas esta não é a pior.

A figura abriu então as cortinas peludas da minha barriga. Surpreendentemente, não senti dor. Com um cuidado cirúrgico, o santo retirou a gordura pecaminosa do meu corpo e alma, atirando-a para o meu balde das necessidades. Ao fechar a abertura, sem deixar marca, pegou no balde e começou a dirigir-se para o espelho.

Senti que me tinha tornado numa pessoa nova, mas ainda assim quis saber o destino das minhas impurezas.

Jantar, disse São João Bosco, num tom agradecido, antes de desaparecer.

 

SOBRE O AUTOR

José Maria Covas

José Maria Covas, desde que nasceu a 26 de setembro de 1998, sempre tentou compreender a realidade em seu redor e contribuir para a sua evolução. Licenciou-se em Ciências Biomédicas na Universidade de Coventry e encontra-se a realizar o mestrado em Medicina Regenerativa na Faculdade de Medicina e Veterinária da Universidade de Edimburgo. Os seus poemas, contos e guiões conjugam o mistério e o estranho da literatura e cinema com o ocultismo e surrealismo das suas viagens, criando, no processo, o seu próprio universo artístico, que eternamente explora a condição humana.