O Guarelhas

de Francisco Horta

 

A 3 de dezembro de 2002, nasceu, numa terra distante, o menino Guarelhas. E consigo, nasceu uma maldição. Presumia-se que a maldição nascera com ele, mas ninguém tinha verdadeiramente a certeza disso.

(A terra não é assim tão distante, mas é preferível deixar o local de nascimento no anonimato, não vá o leitor, ou um qualquer jornalista, querer vasculhar a miséria dos outros.)

E Guarelhas não era o seu nome de batismo; era a alcunha da rua. Para ser exato, o padre, ao ver a cara do menino, no dia em que a mãe apareceu na igreja com o bebé nos braços para o batizar e benzer, sendo este último ato o mais importante, fugiu e nunca mais foi visto. O bebé ficou, assim, por nomear.

É que o menino não tinha orelhas e, quando chorava, como se precisasse de expulsar o maior demónio de todos os infernos de dentro de si, abria a sua enorme boca no maior buraco alguma vez visto. Era a ausência de língua que lhe dava essa impressão.

Estas coisas podem acontecer. Mas não pode acontecer que uma mãe, com um bebé nos braços, sobretudo um bebé assim, tenha o descaramento de dizer que este não tem pai; que não é fruto de uma relação sexual; que não é resultado de um êxito da medicina.

— A ter algum pai, o pai é Deus — dizia a mulher.

A maioria não acreditava, mas há sempre quem acredite.

Os primeiros, embora já não estejamos no tempo das bruxas, por não quererem ver por ali gente daquela, exigiam que a mulher se fosse embora, levando com ela aquela coisa, ou pior a esperaria. Os segundos, acreditando, culpavam a virgindade da mulher, queixando-se de que esta não preparara o corpo para a chegada de um elemento divino, e que agora, no lugar de algo belo, estava um «monstro». Deus estaria fulo.

Todas as pessoas aproveitavam a oportunidade, vendo o bebé à janela ou na rua, para lhe atirar injúrias. A mãe pedia, por favor, que não o fizessem, que o bebé, não tendo orelhas, conseguia ouvir tudo à mesma, mas ninguém achava isso possível. Além de presumivelmente não ouvir, a fala estava condenada. A falta de língua impossibilitava-o de responder, no momento e no futuro.

A mãe, no entanto, foi notando, a cada dia que passava, um remexer na boca do bebé, como se algo quisesse sair lá de dentro. Uma luta. Alguma coisa que se estivesse a formar, impreparada. Que lhe custava e lhe doía.

Surpreendeu-se, por isso, quando, num dia de manhã, o bebé sorriu. E, embora só tivesse seis meses, com uma língua agora perfeita (talvez só um pouco maior do que o expectável), falou de forma bem articulada e audível:

— Não te preocupes, mamã. O Papá diz “Olá”; e manda dizer que os filhos deles, daqui para a frente, vão nascer todos sem cabeça. Podes avisá-los, mas eles não vão acreditar. Diz que, filhos Dele, não vamos ver mais nenhum.

E é por isso que, desde esse dia, naquela terra, todos os fetos são abortados, pois nasceriam sem nada acima do pescoço — é o que mostram as ecografias.

 

 

SOBRE O AUTOR

Francisco Horta

Francisco Horta nasceu em Vila Franca de Xira, em 1987, e foi criado na Subserra. Sonâmbulo, acordou diversas vezes na pedreira, para lá da serra. Durante o caminho de volta a casa, ouvia sussurros que viriam a inspirar as histórias que escreve. Licenciou-se em Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa. Tem como principais influências Richard Matheson e Samanta Schweblin. Vive em Almada, com a mulher e a filha.