O Leiteiro

de Francisco Horta

 

— Estão todos mortos — disse o senhor Lúcio. — O último matei-o esta manhã. — Levou à boca um copo de leite e limpou os beiços à manga da camisola, antes de prosseguir.

— O corpo dele está por ali — apontou para a rua com desdém. — Chamava-se Dinis Pereira. Tive o cuidado de perguntar antes de lhe enfiar esta amiga pela cabeça adentro — pegou na forquilha.

Os homens atrás do grupo de mulheres que ali estava gritavam de satisfação.

As roupas das mulheres estavam rasgadas, e os arranhões e as feridas eram tão maiores quanto a vontade que tiveram de fugir. Nenhuma o conseguiu.

— Como estava eu a dizer — continuou o senhor Lúcio —, o corpo dele está por ali; não saberia dizer onde. Mas os olhos dele… estão aqui — e ergueu a forquilha.

As mulheres choravam, ofegantes. Avós, mães, filhas. Duas irmãs, lado a lado, tentavam manter-se acordadas, mas os cortes nas pernas, tão profundos que a carne lhes pendia pelas coxas, levá-las-ia ao sono sem vida.

— Os olhos estão aqui — prosseguiu o senhor Lúcio. — Para que vejam, minhas amigas, para que vejam — disse. — A mãe dele deve estar por aí.

O olhar do senhor Lúcio percorria as caras das mulheres.

— Estão todos mortos — repetiu. — E elas também.

Baixou a cabeça, benzeu-se, e fechou depois a mão com tanta força que sentiu o ardor da ferida provocada pelas unhas grandes e sujas.

— Não queriam uma exploração leiteira na vossa terra, era? Queriam que as vacas fossem livres? — perguntou. — Aí as têm. Façam bom proveito das vacas livres. As moscas e as larvas, as raposas e os lobos, não ficam de estômago vazio, não.

Lá fora, a chuva caía sobre os corpos das vacas leiteiras, enterrando-as na lama. O mesmo acontecia aos homens da aldeia que queriam libertar os animais daquela exploração pecuária. Desfigurados, todos. Os que fugiram das enxadas e das forquilhas não escaparam das caçadeiras.

— Estão todos mortos — disse novamente o senhor Lúcio. — Mas eu vou ter o meu leite, não duvidem disso.

Ergueu um pouco a cabeça, para o fundo do estábulo, e assobiou para os seus ajudantes, que o saudavam.

— Meus amigos — limpou o sorriso nos lábios com a língua —, encaminhem estas senhoras aos seus novos aposentos. Isto é uma leitaria e eu vou ter o meu leite.

O senhor Lúcio fez uma breve pausa, antes de concluir, olhando para o copo de leite vazio.

— Sabem o que têm de fazer. Daqui a nove meses, quero este copo outra vez cheio.

 

 

 

SOBRE O AUTOR

Francisco Horta

Francisco Horta nasceu em Vila Franca de Xira, em 1987, e foi criado na Subserra. Sonâmbulo, acordou diversas vezes na pedreira, para lá da serra. Durante o caminho de volta a casa, ouvia sussurros que viriam a inspirar as histórias que escreve. Licenciou-se em Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa. Tem como principais influências Richard Matheson e Samanta Schweblin. Vive em Almada, com a mulher e a filha.