O Ponto Preto

de Rita Santos

 

Quando o meu marido sai, ele fala comigo.

 

Já falamos há anos. Acho que o meu marido desconfia. Quando me vê na sala a olhar para ali, fica triste, mas nunca se atreveu a perguntar. Um dia, tentou lavá-lo com lixívia, com a desculpa da humidade. Não deixei. Não o deixo apagá-lo das nossas vidas.

As conversas começaram no dia em que o Gui desapareceu. 

O meu marido ao telefone a gritar, com a minha mãe a segurar-me a mão; o barulho de fundo da polícia a revirar todas as nossas posses; as vozes da televisão a encher os poucos espaços de silêncio. 

Olhava, mas não via. Ouvia, mas não processava. Existia, mas não estava. Falavam comigo e eu respondia «hum-hum». Tudo junto, era um gigantesco zumbido. 

Não faço a menor ideia do que se falou nas primeiras horas. Sei que só me conseguia concentrar naquele canto da parede branca. Até que surgiu um ponto preto. Aquele ponto que vi aparecer no dia em que deixámos de ouvir as gargalhadas do nosso filho. Acho que soube de imediato. 

Esperei. Quando ficámos, eu e o meu marido, ele disse-me qualquer coisa acerca de estar cansado. Ouvi a respiração pesada e o corpo a desistir, pesado sobre o colchão, no quarto ao lado. Continuei a olhar para o ponto. 

De súbito, ouvi a voz do meu filho.

— Mãe — escutei ao longe. — Mãe, estou aqui.

Eu sabia. Meu rico menino.

O ponto preto expandiu-se e voltou a contrair-se, como uma gota de leite frio que cai numa chávena de café quente. 

— Mãe, estou nas paredes.

Depois, deixou de responder. No meu pranto, gritei e bati com a cabeça na parede. Nesse dia, não o ouvi mais.

Vários dias passaram, e eu, mais calma, voltei a tentar chegar até ele. Peguei numa cadeira, que pus de frente para o ponto preto. Se estava louca, não me ia negar a ceder às alucinações. 

Fixei-me nele. O ponto começou a piscar. Primeiro, tão devagar que fiquei na dúvida. Depois, aumentando o ritmo, o bater de um coração. Precipitei-me para a parede, sem decoro ou cuidado, com as mãos numa súplica. 

— Filho? Filho, o que é que te aconteceu? Quem é que te fez mal? — berrei. Podia ser que a minha voz chegasse mais facilmente ao outro lado.

O ponto preto tremeu e espalhou-se até formar uma mão pequenina.

— Tu sabes. Foi a senhora zangada dentro de ti.

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945

SOBRE A AUTORA

Rita Santos

Rita Santos nasceu em Lisboa, no ano da passagem do cometa Halley, e jura que um dia ainda vai escrever sobre a data. Quis ser desenhadora, arquiteta, pintora e uma mão-cheia de coisas mais. A constante? Cinema. Desde 2010 que mantém um blogue de cinema.

Ver 100 filmes de terror por ano é pouco? Experimentem ver mais com dois filhos e um trabalho full-time. Pois.

Hoje em dia, é formadora e consultora na área da criatividade. Publicou na H-alt, reviu textos para outros autores e agora dá os primeiros passos na publicação do seu mundinho negro.

Bem-vindos.