Surpresa

de José Maria Covas

O coração de Raimundo palpitava cada vez mais à medida que o seu barco se aproximava da costa. Sempre achara que era um pequeno mundo, isolado do resto do universo. Ao atracar, fechou os olhos, respirou fundo e deixou-se guiar pelo chamamento. Sentira-o entranhar-se no seu âmago desde os tempos académicos, após ter descoberto, nas ruínas do castelo local, um livro parcialmente queimado.

Posteriormente, em sonhos, um rio de segredos foi apresentado a Raimundo por um ser luminoso. As suas palavras inspiradoras deram-lhe alento, encorajaram-no a continuar a busca. Eram elas que lhe diziam que, se descobrisse a sua origem, poderia ajudar toda a Humanidade.

Havia retornado à ilha vezes sem conta, só para que a culpa o consumisse, uma e outra vez. Hoje, isso não iria acontecer. Ao falhar, a sua intuição melhorara. Desta vez, tinha a certeza de que as suas predições estavam corretas.

Diante de Raimundo, coberta por vegetação, estava a entrada para o cerne da ilha. Alegre, deixou-se apoderar por uma linguagem desconhecida. Abriu a passagem e, entrou pela penumbra do caminho, auxiliado pela luz que as frestas deixavam passar. Havia um túnel à sua frente, que percorreu até chegar a um lago subterrâneo.

Raimundo começou a sentir algo a faltar. Queria saber mais sobre o passo seguinte, mas  já não ouvia a voz do seu guia. Sentia também uma enorme sede. Nisto, ondulações começaram a surgir aos poucos na superfície da água. As reverberações vindas do interior convidavam-no a consumir o líquido, para saciar a sua alma.

Raimundo ajoelhou-se e bebeu. Bebeu e bebeu, mas nunca ficava satisfeito. E a água não o preenchia. A plenitude só veio muitas horas depois, ao sentar-se no lago quase vazio.

Foi nesse momento, num êxtase supremo, que Raimundo reparou num cadáver inumano a dissolver-se no líquido restante, o líquido que ainda sorvia, enquanto era trespassado por memórias que não eram suas. Os olhos de Raimundo tornaram-se abismos sem fundo. Através deles, viu que aquela não era a figura angélica dos seus pensamentos, mas sim um ser esquecido que remontava aos primórdios da existência, que ansiava por liberdade, querendo viver uma vez mais. Assim seria, disse o próprio, e isso apenas se tinha tornado possível graças à preciosa ajuda de Raimundo.

 

SOBRE O AUTOR

José Maria Covas

José Maria Covas, desde que nasceu a 26 de setembro de 1998, sempre tentou compreender a realidade em seu redor e contribuir para a sua evolução. Licenciou-se em Ciências Biomédicas na Universidade de Coventry e encontra-se a realizar o mestrado em Medicina Regenerativa na Faculdade de Medicina e Veterinária da Universidade de Edimburgo. Os seus poemas, contos e guiões conjugam o mistério e o estranho da literatura e cinema com o ocultismo e surrealismo das suas viagens, criando, no processo, o seu próprio universo artístico, que eternamente explora a condição humana.