Transformações

de Sandra Martins

 

Yolanda era a mais velha de cinco irmãos. Nasceu num bairro pobre da periferia da capital, onde as pequenas casas nasciam como cogumelos umas por cima das outras, em tijolo por rebocar. Yolanda não era bonita, mas era esperta e honesta.

Em casa, a mãe sozinha não dava conta de tanto trabalho para sustentar a família. Yolanda e os irmãos, por vezes, passavam fome. Foi por isso que Yolanda, aos 15 anos, querendo uma vida melhor para si e para os seus, tomou uma decisão.

— Vou viver por minha conta! — comunicou à mãe.

— E o que é que estás a pensar fazer? Ainda és uma criança!

— Tenho mãos, tenho pés, tenho força e sou inteligente, posso perfeitamente trabalhar!

 

Apesar dos protestos da mãe, Yolanda arranjou trabalho como empregada doméstica, na casa de um homem abastado da capital.

De início, as coisas corriam de feição. Yolanda era organizada, empenhada e cumpridora. O patrão estava satisfeito com a sua nova aquisição.

Mas Yolanda era jovem. E estava sozinha. Sem ninguém que tomasse conta dela. Ao aperceber-se da situação, o patrão abordou-a:

— Já percebi que não tens ninguém que olhe por ti. Eu posso ser o teu padrinho, se me deixares.

Só e indefesa, Yolanda aceitou, e  o «padrinho» de imediato a recebeu em sua casa, de forma permanente. Cedo se estabeleceu uma relação sexual entre os dois. Ele tinha idade para ser pai dela.

O padrinho, ainda assim, não contente com a aparência de Yolanda, investiu em certos «melhoramentos físicos». Pagou-lhe cirurgias plásticas para estreitamento da cintura, aumento do peito e dos glúteos, e várias injeções de botox. Comprou-lhe um guarda-roupa com as melhores marcas, que renovava frequentemente. Yolanda passou a usar longas extensões de cabelo, longas unhas e pestanas. E saltos muito altos.

Ao princípio, sentia-se um novo ser. Era protegida. Desejada. Tinha dinheiro para ajudar a família.

As cirurgias, porém, continuavam a gosto do padrinho, e quando Yolanda se olhava ao espelho nem se reconhecia nos exagerados traços de feminilidade, que o padrinho tanto apreciava.

Nos negócios, por outro lado, Yolanda sentia-se cada vez mais poderosa. Foi-se apercebendo de que o padrinho não passava de um indivíduo limitado e snob. Começou a perceber o que tinha de fazer para se livrar daquele domínio redutor: desviar dinheiro, vender informações à concorrência, juntar o mais que conseguisse sem que ele notasse.

Mas as pessoas falam. E Yolanda viu-se apanhada. Nesse dia, ainda assim, pensava:

Ele nunca me fez mal, ele trata-me bem. Eu devolvo-lhe o dinheiro e ele perdoa-me de certeza. 

 

*

 

Os gritos ecoaram pela vizinhança naquela noite de verão.

Quando a polícia finalmente entrou na casa e arrombou a porta do quarto, viram o corpo de Yolanda esventrado em cima da cama, os lábios e as faces retirados da cara, os seios esvaziados, os glúteos e a cintura cortados em golpes numerosos. O escalpe, ainda com as extensões de cabelo, pendurava-se no candeeiro.

O padrinho quisera a devolução de tudo aquilo que era seu.

SOBRE A AUTORA

Sandra Martins

Sandra Martins nasceu e vive em Lisboa. Estudou Gestão e Estatística. Escrevia ocasionalmente com o objetivo de informar.

A pandemia e o confinamento tornaram a ocasião cada vez mais frequente e, depois de alguns cursos na Escrever Escrever, começou a fase de exploração, para criar algo mais interessante.
O desconforto e as incertezas que marcaram os últimos anos trouxeram a público algumas experiências pouco racionalizadas e potencializaram a escrita de terror.