A Promessa

de Liliana Duarte Pereira

 

«O nosso Deus está no Céu,

e faz tudo o que deseja.

Os ídolos deles são prata e ouro,

obras de mãos humanas:

têm boca e não falam,

têm olhos e não vêem;

têm ouvidos e não ouvem,

têm nariz e não cheiram;

têm mãos e não tocam,

têm pés e não andam,

a sua garganta não tem voz.

Fiquem como eles os que os fazem

e todos os que neles confiam!»

Bíblia Sagrada, Livro de Salmos, Salmo 115, «Deus mantém-nos vivos»

Depois de retirarmos tudo de dentro de casa, ficámos três quartos de hora a olhar para a Santa Rita de Cássia, padroeira das causas impossíveis. O nosso pai acolheu-a como herança de um trisavô, que a salvou de uma igreja destruída. Toda a vida recebemos a mesma recomendação: deveríamos estimá-la e mantê-la a salvo no seio da família.

A minha irmã estava imóvel. Eu remexia-me. A minha barriga parecia um balão de ar quente prestes a rebentar. Com a morte dos nossos pais, a venda da casa era destino traçado, e nem eu nem ela tínhamos interesse em levar aquele mono. Os seus olhos arregalados, em constante vigia, desassossegavam até as almas não crentes. Acordámos que o melhor seria deixá-la exactamente onde estava. Tínhamos esperança de que os novos habitantes fossem devotos e se sentissem abençoados com a relíquia.

A 22 de Maio, entrei em trabalho de parto, mas a minha filha nasceu sem ponta de vida. Colocaram-ma no colo para que a pudesse conhecer e despedir-me. Chorei enquanto a embalava. Pedi perdão ao meu pai como se ele ali estivesse. Como se o infortúnio resultasse do facto de termos deixado a Santa para trás. Em desespero, supliquei vida para aquele pequeno corpo mudo e quedo. Em troca, encarregar-me-ia de recuperar a Santa. A bebé mexeu-se e berrou em plenos pulmões. Do seu nariz e boca, escorria água, parecia obstruída.

Quando saí da maternidade, a primeira paragem foi a casa dos meus pais. Fui buscar a Santa, alegando esquecimento. O casal que nos recebeu entregou-ma sem grandes questões. Estava na garagem, coberta por um lençol. Envolvia-a nos meus braços com espírito de missão cumprida, enquanto o casal mirava a minha bebé. Comovidos, disseram-me que a filha tinha morrido no dia 22 de Maio, afogada na piscina de casa. Chorei a dor deles, porque também foi a minha.

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945

SOBRE A AUTORA

Liliana Duarte Pereira

Liliana Duarte Pereira, nascida a 30 de junho de 1986, é licenciada em Política Social através do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Sempre quis preparar os mortos para os seus funerais, mas não vingou. Tem fobia a pessoas falecidas e a portas entreabertas. Gosta de animais, de fazer doces, de rir de coisas mórbidas e de escrever.

Integrou as antologias Sangue Novo (2021), Rua Bruxedo (2022) e Sangue (2022).

Venceu o Prémio Adamastor de Ficção Fantástica em Conto (2022) com «O Manicómio das Mães», da antologia Sangue Novo.

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