O Dito e o Não Dito

de Ana Rita Garcia

 

Pedi-lhe que matasse o pai, com a mesma leveza com que lhe pediria para me passar o sal. Não esperava que me levasse a sério. Achei que se ia desmanchar em gargalhadas, estalar a língua e abanar a cabeça. Enganei-me. Em vez disso, arrastou a cadeira para trás, arranhando o chão de madeira com um rugido de fera selvagem. Levantou-se, e eu estremeci. Antes de virar costas à mesa, agarrou a faca com que tinha talhado o peru. Sem hesitar, saiu da sala e saiu de casa, batendo a porta com um estrondo que ecoou dentro de mim.

Um calor pegajoso escorreu-me pelas costas e roubou-me o ar. Teria ganho o poder de comandar os outros com a minha voz? Ou apenas de comandar o João?

Ousei espreitar a rua. Vi-o atravessar a estrada, abrir a porta de casa dos pais, que nunca estava trancada, e entrar pela escuridão adentro como se marchasse para a guerra. Apesar da distância e da janela fechada, ouvi os gritos gelados da mãe e vi-a fugir, saindo pela porta por onde o filho havia entrado, de camisa de noite ensanguentada. Um enjoo indescritível ameaçou trazer o peru ingerido de volta ao prato. Gritei também.

Depois, o João abanou-me o ombro e afagou-me a cabeça. Estava calor debaixo do cobertor.

— Calma, foi só um pesadelo — sussurrou-me, com o  hálito ensonado.

Respirei fundo, tentando controlar o coração que batia desenfreado. O peru ainda me pesava no estômago.

Não. Não fora um pesadelo. Fora um desejo.

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945

SOBRE A AUTORA

Ana Rita Garcia

Sonhadora incurável, adepta de cafés longos e de passeios à beira-mar, nasceu em Lisboa, em outubro de 1988. Cresceu a usar o lápis para se expressar através de formas e palavras. Formou-se em Arquitetura, escondendo a paixão pelas Letras até as histórias começarem a escorrer-lhe pelos dedos. Integrou as antologias In/Sanidade e Dúzia (Editorial Divergência), publicou o conto «Colecionadora» no sexto número da revista literária Palavrar e tem vários contos publicados na página oficial da Fábrica do Terror. Em 2024, foi vencedora do Prémio Ataegina para Conto Original, com Os Acasos Improváveis de Mister Rayleigh.

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