Colateral

de Liliana Duarte Pereira

 

Sei que a ouves ganir. Esforças-te por racionalizar, mas há aquele timbre na voz dela, que nem parece humano. Estavas presente e, em momento algum, a conseguiste ajudar. O corpo dela era um carrossel em andamento, a contrastar com a tua paralisia. Nunca te vais poder convencer de que ela não sofreu. Sofreu. E muito. Uma dor sem interrupções. Agonizante. Assistiu, tal como tu, ao desligar de cada célula, como quem é lancetado sem anestesia. Colateral, não aleatório. 

Quem me dera que tivesses sabido usar o silêncio. Que, em conversas paralelas e ensaios sobre a dor do outro, tivesses guardado os teus julgamentos no bolso. No final, o que é que ganhaste? Um momento engraçado para me lembrares do que nunca poderei esquecer? A perda do meu cão divertiu-te? Eu fiquei sem ele. E tu… tu ouvirás para sempre ganir, para nunca te esqueceres de como morreu a tua mãe.

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945

SOBRE A AUTORA

Liliana Duarte Pereira

Liliana Duarte Pereira, nascida a 30 de junho de 1986, é licenciada em Política Social através do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Sempre quis preparar os mortos para os seus funerais, mas não vingou. Tem fobia a pessoas falecidas e a portas entreabertas. Gosta de animais, de fazer doces, de rir de coisas mórbidas e de escrever.

Integrou as antologias Sangue Novo (2021), Rua Bruxedo (2022) e Sangue (2022).

Venceu o Prémio Adamastor de Ficção Fantástica em Conto (2022) com «O Manicómio das Mães», da antologia Sangue Novo.

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