Curativo

de Edgar Ascensão

 

Na aldeia, chamavam-no apenas «o Tó», como se o nomear de um homem simples fosse já uma alcunha — uma desculpa para a sua forma de andar tímida e curvada, para a barba sempre por fazer e para as palavras que lhe escapavam aos murmúrios. A criançada gritava, sempre que o via, «ó Tótó!», provocação certa para ele se encolher todo e voltar para trás.

Vivia há muito sozinho, desde que a mulher falecera jovem, pouco depois de casarem. Não tendo filhos para lhe baterem à porta, a solidão, diziam, tinha-lhe desgastado a cabeça. Sem coragem de criar amizades ou inserir-se em algum convívio, limitava-se a evitar olhares, fugindo para casa assim que o Sol se punha.

Todos os domingos, porém, o Tó aparecia na igreja. Sentava-se sempre no mesmo banco, ao fundo, de casaco grosso no verão, botas rotas no inverno. Entre a vergonha e o desespero de estar rodeado de gente, com a aldeia em peso debaixo do mesmo teto, não rezava alto como os outros nem mexia os lábios durante as preces. Deixava-se estar ali, quieto, com o olhar fixo no altar. No fim da missa, costumava ficar sentado à espera de que a igreja ficasse vazia de crentes, para estar certo de que não seria interpelado na saída.

Foi num desses dias que a Rosário o viu, quando se preparava para limpar e arrumar a igreja, antes de fechar as portas. Mulher esquelética com olhos de rato, não ganhou para o susto ao abrir a porta da sacristia, dando de caras com o Tó, cujo velho casaco já se fechava. Como se tivesse lavado o corpo por dentro, os olhos do Tó arregalaram-se, saindo apressado da igreja, trapalhão, a limpar o suor da cara e a saliva amarelada aos cantos da boca. O frasco de vidro que levava debaixo do casaco ia completamente cheio, como pretendido, chegando a molhar a roupa de dentro com os solavancos. A água benta que restara na pia bebera-a ele diretamente, de boca encostada ao granito, debruçando-se sobre ela como um mendigo. Tinha sorvido até não conseguir mais, com os lábios a sugar a pedra. Tinha lambido as reentrâncias para não deixar uma gota que fosse. O frasco cheio do que conseguira retirar, por sua vez, levava-o para casa, para ser bebido logo à noite, quando as vozes regressassem para lhe sussurrarem ao ouvido, e Ele o importunasse novamente ao espelho.

SOBRE O AUTOR

Edgar Ascensão

Desde sempre ligado às artes visuais, foi pintor, designer e videomaker. Argumentista de umas quantas histórias BD publicadas em diversas fanzines, foi também um dos membros fundadores da Take Cinema Magazine. Durante muito tempo, alimentou o seu blog de cinema Brain-Mixer, onde extravasava toda a sua mente cinéfila. Foi aqui que nasceram os Posters Caseiros, cartazes alternativos de filmes.
Ainda gosta de escrever casualmente, entre o terror e sci-fi. Mas vê o futuro dividido, entalado entre as palavras e as imagens, os contos ou os posters.

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