De Novo
de Remi Gonçalves
Senti um pequeno toque na traseira do carro.
Não de metal, mas como se uma mão o desviasse.
Perdi o controlo. Guinei o volante, sem efeito. O carro já não me pertencia.
Empurrou-nos o destino para a montra da sua loja favorita, depois de abalroarmos o semáforo do sentido contrário.
No instante antes do embate, suspensos no ar e na respiração, os nossos olhos encontraram-se.
O silêncio foi o único pedido de desculpas que consegui oferecer.
Estilhaços voaram à nossa volta. Em câmara lenta.
Apenas o som do airbag dela devolveu o tempo à normalidade.
Tudo negro.
Despertei em cima do capô. Com dores no corpo e em ângulos que desconhecia serem possíveis.
Cada respiração dela era em esforço, agravada pelos dois fios vermelhos que lhe escorriam das narinas.
E depois, o puxão.
Tudo negro outra vez.
Chega a ambulância. Já nos encontramos na rua e fora do carro.
Estamos no passeio a ver os paramédicos extraírem sacos de carne ensanguentada do acordeão metálico que fumega na vitrine da loja.
Levam os nossos corpos. E nós ficamos.
Damos as mãos. E os nossos dedos atravessam-se como duas sombras que se sobrepõem.
«Novo» é quando fazemos uma coisa que nunca fizemos.
«De novo» é quando a fazemos pela segunda vez.
De facto, nunca o fizemos na morte, mas já passeámos em vida.
Isto somos nós, na rua, a caminhar de novo.
SOBRE O AUTOR
Remi Gonçalves
Remi nasceu em 1995, em Penafiel. 41.19682374371018, -8.30977178430423
Não fosse ele profissional da área de Ciências Geográficas e especialista em Sistemas de Informação Geográfica. Leitor aficionado que bebe das fontes de Stephen King e de Raphael Montes – influências que moldam a sua escrita espartilhada e visual.







