Felizes os Convidados
de Nuno Rosalino
É um círculo perfeito de um branco imaculado, quase translúcido, como uma nuvem que solidificou. Adivinha-se insípido e sem graça. No centro, tem uma cruz em baixo-relevo, que, à falta de uma perninha mais longa do que a outra, é também um sinal de mais.
O padre parece não saber como reagir perante a tua pausa para contemplar a hóstia. Pigarreia e repete, enfatizando cada sílaba:
— O Cor-po de Cris-to.
Assim mesmo, com travessão e hífens, e cristo e corpo em maiúscula reverencial.
Olhas de novo para o círculo, preso entre polegar e indicador, para as unhas roídas, para os dedos arroxeados e sapudos. A carne parece querer rebentar pelas costuras. Libertar-se.
Ouves, atrás de ti, o friccionar de pernas que cruzam e descruzam, impacientes.
O padre, sussurrando para que a congregação não perceba, diz língua e, como se fosses lerda, faz espreitar a dele por lábios entreabertos.
Deitas a tua de fora. Não a deixas achatada e cordial, mas rija e atrevida. O padre assenta nela o pão, mas não com a gentileza com que o viste fazer antes. Pressiona-o (vingativo, bruto) sobre a tua língua, forçando-a para dentro.
Enquanto voltas ao genuflexório, o pão começa a ganhar volume, a ocupar mais espaço entre a língua e o céu da boca. Não sabe agora ao nada de antes, mas a limpo e a sal. A textura também se altera e, onde era lisa, ganha uma rugosidade não desagradável. Deixas a língua percorrer esta nova forma, que cede um pouco quando a pressionas, como um pequeno ovo cozido.
Disseram-te para não a trincares, que a deixasses derreter na boca. Porém, contigo, a curiosidade leva sempre a melhor. Trincas, primeiro ao de leve, tentativamente, mas depois com vontade, o que faz espirrar um líquido da hóstia. Como uma Bubbaloo, mas em vez de saber a morango, tem um sabor metálico que te lembra as moedas de escudo, as pretas, círculos perfeitos que, por desfastio, de vez em quando gostas de rilhar.
O interior da hóstia tem uma esponjosidade que te repugna, como o fígado que o pai uma vez te deu a provar para ver se fazias cara feia, ou a terrinca do bife, que te dá gómitos e que pedes sempre à mãe para cortar. (Ela nunca o faz.) Tentas mantê-la na boca, controlar as convulsões da garganta que te impelem a cuspi-la, mas não és capaz.
O líquido escorre-te pelo queixo.
Sentes o peso dos olhares de todos nas costas, nos ombros; mantém-te a cabeça baixa, focada no quinhão de carne trigueira que caiu em frente ao genuflexório numa poça de líquido vermelho.
Não sabes o que fazer. Não consegues tirar os olhos da hóstia. Sentes-te fora de ti, como se te observasses num filme.
A mãe chama-te com um sussurrar ríspido dos teus dois nomes próprios. Antes de te virares, limpas, reflexivamente, o líquido que te corre pelo queixo com a manga do vestido branco.
Vês a mãe olhar-te com os olhos quase a saírem-lhe das órbitas e os lábios premidos de raiva. Abana a cabeça na direção da carne. O pai parece menos zangado, mas faz gestos com a mão que também te encaminham a atenção para lá. O resto da família, sentada no mesmo banco, com as caras em leque espreitando, toma atitudes semelhantes.
Levantas-te, aproximas-te e, com as mãos em concha, recolhes a hóstia e todo o líquido que consegues. Levas a carne à boca e, de um trago, engoles.
SOBRE O AUTOR
Nuno Rosalino
É tradutor e revisor profissional, vadio amador e mestre em Tradução Literária (não-praticante [cédula caducada]).
Vive na Inglaterra com a parceira e o gato, onde magica planos para ser o iconoclasta da diáspora.
Escreve porque não resta mais nada.







