Bola de Berlim

de Carolina Fidalgo

 

Como? Não, senhora. Foi assim… Ia com a geleira. A areia estava acesa, mas o negócio corria bem. Muita toalha, pouco chão. Nem se podia olhar para o mar de tanta luz. Não, senhora. Nada disso. Tanto que primeiro ouvi os gritos. Não, ao mesmo tempo. Foi instantâneo. Havia mesmo muita gente. Claro que vi, senhora. Não sou cego. Quer mesmo saber? Imagine peles vivas. Fungos a rebentar em camadas. O cheiro… Não me leve a mal, mas uma vez visitei uma fábrica de ração animal e era igual. Adocicado. Se os visse, todos deformados a correr para a água, uns contra os outros. Também levei um encontrão. Olhe aqui. Os que chegaram ao mar ainda gritaram mais. Do sal, está a ver? Depois, os gritos pararam. Tudo quieto. Uma série de telemóveis caídos, pedaços amputados… Não, senhora. Já lhe disse que não. Sempre quer a bola de Berlim?

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945

SOBRE A AUTORA

Carolina Fidalgo

Nasceu em Coimbra em 1992, mas cresceu entre a Gardunha e a Serra da Estrela. Estudou Línguas Modernas na Universidade de Coimbra, tem um mestrado em Literatura e outro em Estudos Editoriais. É professora de Português. Já morou na Escócia e na China. Agora, vive na Suécia.

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