Conforto e Anis

de Inês Garcia Morais

 

É curioso, se pensarmos bem, tudo aquilo a que o corpo se habitua. Tudo aquilo que a mente desculpa, tudo o que a alma vai acomodando, como sujidade nos cantos e gavetas com memórias apodrecidas.

Guardei o cianeto atrás da canela e do anis, num frasco que dizia «bicarbonato de sódio», e voltei a aquecer as mãos no chá. Tinha gelado naquela esplanada à tua espera.

Tinhas-me traído pela segunda vez. Depois disso, falaste-me de perdão, de amor e de como eu não podia mudar a minha personalidade doce, afável, como uma tarde de fim de Verão, daquelas em que se prevê o Outono.

Eras tão poético, e eu fingia gostar. Na realidade, eras tão enjoativo que as pastilhas que eu mascava eram por tua causa — não pelo refluxo que te dizia ter. 

O que eu gostava em ti era do teu carácter assassino, implacável, mas verdadeiro — davas cabo de quem fosse no trabalho para passar à frente. Não admitias faltas de respeito. Não toleravas falhas de disciplina. A tua inflexibilidade era o meu conforto; conforto que tu sentias no meu caos controlado. Uma casa desarrumada, mas vivida, com velas derretidas e arte pelas paredes. Não vias em mim alguém como tu, eu sei. E eu teria ficado bem com isso, porque éramos um. Completávamo-nos.

Quando me traíste uma primeira vez, até compreendi. Tanta pressão no trabalho, ela estar mesmo ali à mão… Infeliz, o acaso era inegável.

Foi mais feliz para mim que ela fosse tão descuidada com o saco de ginásio e com a garrafa de água. A minha intenção era poupá-la e dar-lhe apenas um susto, prometo — mas cometeste o deslize de me dizer que ela não se tinha arrependido, que queria mais. Pediste-me que não causasse uma cena ou que não fosse deselegante.

Parecia que não me conhecias, amor, e isso magoou-me. Drama é o meu estilo; fazer uma cena nem por isso.

Tinhas-me desiludido, sim. Mas dei-te uma segunda oportunidade, na esperança de ter sido a tua juventude a responsável, ou uma depressão latente, da qual melhorarias comigo. 

Desta vez, juraste estar dividido e apaixonado por ambas. Não te consegui perdoar essa falta de discernimento, essa indisciplina, essa infantilidade. De repente, já não eras o meu rigoroso protector — eras banal, um homem comum. E horrorizava-me que a minha pessoa fosse, afinal, de um aborrecimento venenoso. E pior… Que isso viesse a público, que eu fosse mulher de alguém igual a todos os outros.

Que desperdício.

Era o teu chá preferido, o que te levei. Alfazema com um toque de anis e leite. Deixei-te no nosso miradouro preferido. Dei-te um final digno do vilão magnífico que foste a tua vida quase toda. Um miradouro, um carro, uma ravina. Foi um filme maravilhoso.

Não foi o que aconteceu com o outro, o que me batia, o que me mandou para o hospital, o que odiavas. O que te disse que tinha desaparecido sem satisfações. Esse deixei no lixo, com a coca que tanto adorava no bolso. Não me lembro do anterior a esse — estava bastante debilitada depois de ele me ter partido os ossos.

Com o primeiro de todos, foi mais difícil. O único erro dele foi apaixonar-se pela minha melhor amiga. Deixei-a viver, sabes, contra o meu primeiro instinto. Afinal, descobri que tinha sido tão enganada como eu. Ele, por outro lado, suicidou-se, com a minha ajuda. Não queria sangue nem armas — uma rápida pesquisa online e concluí todo o processo.

O coração doeu-me nesse dia, como nunca mais doeu desde então. Os gritos da mãe dele, os vestígios, o meu nervosismo.

Nunca mais.

É curioso ao que nos habituamos. Mas nunca me habituaria à banalidade. Espero que compreendas.

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945


SOBRE A AUTORA

Inês Garcia Morais

Gryffindor nascida a agosto de 1986.

Licenciada em Estudos Anglo-Americanos (2009), com pós-graduações em Tradução e Arte e Educação. Fascinada por Poe e Gaiman; Burton, Spielberg e Aronofsky; cidadã de Gotham, Hogsmeade e Rivendell; fã de Zimmer e música dos anos 90.

Com dez anos de experiência em ensino, trabalha agora em integração e well-being.
Foi escrevendo sobre filmes e séries, e completando diversas formações
em Escrita Criativa.

Hoje, o seu propósito passa por explorar e partilhar a terapia existente nas histórias que amamos.
Acima de tudo, acredita que transformar emoções em vida contada é a mais bela das homenagens.


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