Cabelo Encrespado

de Leonor Hungria

 

O cabelo encrespado da Dona Otília fez a cabeleireira cerrar os maxilares. As mãos tremiam-lhe, a tesoura e o pente quase lhe fugiram das mãos. 

Lurdes Gaspar, pensou, tu aguenta-te

Mas a repulsa era enorme. 

Não havia como fugir à lembrança dos pêlos púbicos da mãe. 

E das suas exigências.

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945

SOBRE A AUTORA

Leonor Hungria

Leonor Hungria nasceu em Lisboa, no dia 6 de novembro de 1977, arruinando assim os planos da sua mãe de ver o último episódio da telenovela Gabriela. Foi fonte de mais alguns aborrecimentos durante a infância: era habitual os pais encontrarem-na a desenhar nas paredes da casa, especialmente debaixo do lavatório, onde os gatafunhos passariam despercebidos. Ou assim ela o pensava.
A sua paixão pelo desenho, pelos livros e pela escrita cresceu na adolescência, o que fez dela uma «croma» sem remédio.

O seu corpus de trabalho abrange os géneros neovitoriano, gótico e horror, sempre com algum humor. Negro, claro.

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