Batimento
de Liliana Duarte Pereira
Deitada na cama, levanto os braços servindo-me dos cotovelos como suporte. Deixo que as mãos descaiam sobre o peito, e os dedos resvalem até ao centro, tacteando a pele grossa. Uma linha comprida na vertical e outras tantas pequenas, espaçadas entre si, na horizontal. A maior parte do tempo, sinto-me uma carcaça aberta ao meio.
O medo de morrer sobrepõe-se a qualquer outra emoção e, quando é sentido de perto, julgamos não haver mal maior. Fui adormecida com uma dor, acordei com outra. A confusão leva-nos a crer que é o pós-operatório o mais difícil, e eu quis tanto acreditar nisso. O contexto absorveu-me. Fui direccionada para reaprender o básico, ganhar massa muscular e caminhar sem me sentir cansada. Se soubesse que era esta a sensação de me rasgarem, tirarem uma parte quase morta para me colocarem outra que não era minha, nunca teria aceitado. Teria preferido compactuar com o mau funcionamento do meu corpo e deixar-me ir.
Não existem palavras que descrevam este sentimento. É como se tivesse sido invadida e abusada enquanto dormia profundamente. Imaginem entrarem na vossa casa e verem-na revolvida. Não importa o empenho em voltar a colocar tudo em ordem, a impressão de que alguém estranho tocou nas nossas coisas nunca desaparece. Não voltei a ser quem era porque não há costura que esconda o que quer estar exposto.
Carrego a peça principal de alguém cuja morte me beneficiou. Ganhei uma dívida eterna. Devia estar grata pelo tempo que me concedeu e pelo qual tanto ansiei, mas nunca me consegui apaziguar. Não quis ser mal-agradecida, nunca foi disso que se tratou. Baixinho, supliquei a rejeição, mas ela nunca veio. Aguentei por respeito, esperando sempre pela pena mínima. Até agora, quinze anos de más memórias, e ele, persistente, a bater coordenado. Não posso mais… Silencio-o ao arrancá-lo do peito.
*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945
SOBRE A AUTORA
Liliana Duarte Pereira
Liliana Duarte Pereira, nascida a 30 de junho de 1986, é licenciada em Política Social através do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Sempre quis preparar os mortos para os seus funerais, mas não vingou. Tem fobia a pessoas falecidas e a portas entreabertas. Gosta de animais, de fazer doces, de rir de coisas mórbidas e de escrever.
Integrou as antologias Sangue Novo (2021), Rua Bruxedo (2022) e Sangue (2022).
Venceu o Prémio Adamastor de Ficção Fantástica em Conto (2022) com «O Manicómio das Mães», da antologia Sangue Novo.







