Hora de Visita
de Benilde Santos Gaião
Matilde chegou tão ofegante e apressada que quase ia tropeçando no cascalho, humedecido pela geada da noite anterior. Tinha saído de casa a correr, com o casaco torto e farripas de cabelo preso por uma mola, impotente em segurar as madeixas em desalinho sobre o rosto ainda com marcas de almofada.
— Atrasei-me, pai, desculpa. Já vens com isso do «sempre em cima da hora»?! — Fez uma pausa e respirou fundo. — Sim, tens razão, continuo a precisar de três despertadores para acordar. Mas estou aqui, não estou? Não é o mais importante? Sim, eu sei… Não ponhas esse ar de quem olha por cima dos óculos, até porque não os tens. Já ouvi, sim. A pontualidade é uma forma de respeito. Hoje, não consegui ser respeitosa. Mas vim!
Sem mais demoras, Matilde sentou-se no assento frio, pouco talhado para o conforto, e ajeitou a mala no colo, como se precisasse de segurar algo enquanto falava.
— Não, não estou zangada… Mas ainda estou desiludida. Não é fácil esquecer, sabes? Tu abandonaste-nos, pai! A mim, à mãe… Como é que pudeste?
— …
Matilde fixou os olhos prestes a transbordar no sorriso tranquilo do pai, e sorriu também.
— Sim, ela continua a fazer o arroz de cabidela aos domingos… e a tropeçar a toda a hora na tua cadeira. — A jovem esboçou um sorriso nervoso. — E eu continuo a dar aulas…
— …
— Sim, na mesma escola. Quer dizer, agora não. As coisas descontrolaram-se e fui obrigada a meter uma baixa. Só durante uns tempos, até assentar as ideias e acalmar a cabeça. — Matilde endireitou o corpo e respirou fundo.
— …
— Como é que não tiveste escolha?! — Uma lágrima rolou. — Claro que tinhas! Tu é que escolheste não ficar!
— …
— Sim, sim… dramática! Sou mesmo. Não tenho respostas prontas como tu, com essa cara e esse sorriso, a fingires que é tudo muito natural.
— …
Matilde suspirou.
— Não, não quero desculpas. E também não quero explicações. Só queria que me ouvisses sem desapareceres a meio do que tenho para dizer. Já percebi que és perito nisso.
Matilde enterrou os cotovelos no colo, tapou o rosto com as mãos. Não, não queria vê-lo. Quanto tempo teria passado?
— Pai… eu… — A jovem calou-se subitamente ao pressentir uma presença, a aproximar-se com cautela, como quem evita interromper um ritual solene.
— Desculpe… — disse a voz masculina, hesitante. — É que tenho mesmo de fechar o portão.
— Fechar? — repetiu ela sem olhar para o homem. — O portão?
Sem esperar resposta, Matilde levantou-se devagar e apanhou a mala. Ao virar-se, lançou um último olhar à lápide. O sorriso imóvel e sereno do pai, bem como o seu nome em granito escuro, devolveram-lhe um frio que parecia alastrar-se dentro do peito.
Ao sair, o portão do cemitério chiou, fechando-se atrás dela, como quem fecha cruelmente um livro cuja leitura ficou a meio.
*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945
SOBRE A AUTORA
Benilde Santos Gaião
Benilde Santos Gaião nasceu em 1979, em Elvas, residindo, todavia, no mesmo Alentejo que lhe foi berço. Professora de inglês, procura transmitir nessa língua estrangeira (entre outras coisas) a ideia de que apenas o Amor é universal. Intrínseca à docência terá surgido a escrita: criação, partilha e sobretudo a crença de que as palavras têm o dom de esbater as fronteiras entre o sonho e a realidade, entre o eu e o outro…







