Sem Convite

de Remi Gonçalves

 

O cheiro a gasolina e a sangue são o meu perfume de despedida. Deixo-o como oferenda nos meus altares de metal e de vidro.

Esta noite, um casal está estacionado no miradouro sobre a cidade. As luzes cintilam diante deles como um colar de diamantes pendurado no vale. Uma bonita imagem, que não resisti a estragar.

Evito que a minha sombra apressada se espreguice perante o luar e os alcance primeiro do que eu. Um tambor surdo no meu peito ecoa à medida que me aproximo do carro.

A minha voz é o estalo seco de um cartucho a ser armado. Os meus dedos, enluvados de negro, golpeiam a janela do condutor.

E a dança começa.

Os olhos assustados, as faces incendiadas de vergonha, mãos que voam para cobrir uma nudez subitamente obscena. Dois corpos tentam recompor o mosaico da sua intimidade violada.

As mãos dela, outrora perdidas nele, fazem um gesto fútil para tapar os seios que este intruso já viu, enquanto os braços dele, que a envolviam, se tornam num escudo inútil. Que eu desarmo.

Um bando de pardais levanta voo quando o primeiro disparo rasga o silêncio serrano. Um buraco vermelho floresce no peito dele, eliminando assim o ator secundário, que tomba na roupa amontoada.

É então que me viro para ela. 

Esta parte é diferente. 

A minha preferida. 

Pouso a arma no tejadilho e entro onde não fui convidado. As ferramentas, agora, serão as minhas mãos.

Sinto a pulsação dela a martelar contra o meu polegar. Aumento a pressão gradualmente, até que finalmente pára.

Aproveito enquanto ainda está quente. E sirvo-me.

Não gosto de comida quente. Nem fria. Morna está ótimo. Quando o calor da vida foge, e a rigidez ainda não se instalou.

É por essa fresta de cortina que eu entro, e que o espectador se revela como o ator principal.


SOBRE O AUTOR

Remi Gonçalves

Remi nasceu em 1995, em Penafiel. 41.19682374371018, -8.30977178430423

Não fosse ele profissional da área de Ciências Geográficas e especialista em Sistemas de Informação Geográfica. Leitor aficionado que bebe das fontes de Stephen King e de Raphael Montes – influências que moldam a sua escrita espartilhada e visual.

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