A Última Gota

de Joana Bastardo

 

A transfusão começou assim que regressámos da lua-de-mel.

Quando soube da condição que acometia o meu marido, uma velha herança de família, não hesitei em oferecer-me. Afinal, estava certa de que éramos compatíveis.

Mal senti a punção, ou quando implantaram o cateter que me ligou à pequena bomba. Tudo o que tinha de fazer era accioná-la para que uma gota fosse colhida.

Ploc.

E o líquido transparente era entregue directamente ao sistema ventricular dele, através do buraco de trepanação — uma gota de chuva a quebrar a superfície de um lago cristalino.

Avisaram-me de que haveria dor. O latejar nas fontes sinalizava que já transfundira liquor suficiente e que podia parar. Já o meu marido, quando se sentisse diminuído, deveria chamar por mim, alertando-me de que era hora de repetir.

Fiz exactamente como me foi explicado: acorria à chamada, accionava a bomba, doava algumas gotas e parava assim que o coração me subisse às têmporas. Durante anos, assim foi. Chamada, bomba, vazar, latejar, parar; chamada, bomba, ploc, ploc, ploc, latejar, parar.

O latejar, no entanto, cedo se tornou num estrondear; e o estrondear, um dia, numa tempestade que nunca findava.

A dor toldou-me o discernimento. Lembro-me de questionar a necessidade de ainda verter tanto de mim, com o meu marido já recuperado. Houve até um dia — horroriza-me admiti-lo — em que quase arranquei o cateter de entre as minhas vértebras. Tê-lo-ia feito, não fosse ele deter-me, antes de me estender no leito que, durante tanto tempo, fora seu.

Agora, é a minha vez de ser cuidada.

Descanso, enquanto ele se ausenta e, mesmo quando regressa, de passo ligeiro e perfume primaveril, já nada me é pedido. É ele quem se aproxima, sem qualquer chamada, e acciona a bomba, enquanto eu me quedo a ouvir o gotejar, já indiferente ao cataclismo incessante na minha cabeça.

De facto, já mal o sinto de todo, tal como o resto de mim. Além de um leve formigueiro, tudo o que existe é aquele som.

Ploc.

Aquele gotejar.

Cada vez mais espaçado.

Ploc.

Cada vez…

Mais…

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945


SOBRE A AUTORA

Joana Bastardo

Joana Bastardo nasceu em 1989, no Porto. Agora médica de família em Vila Real, escreve à margem do quotidiano — em minutos roubados e madrugadas insones. Autodidata, dedica-se à ficção literária e às múltiplas facetas do terror, com uma voz lírica e fragmentária que explora trauma, culpa e identidade. Encontra na escrita uma forma de exorcismo — e de sobrevivência. Entre os seus projetos, destacam-se Linha Vermelha, romance de terror psicológico sobre uma futura cirurgiã em colapso, e Tarot Literário, jornada não linear de uma alma condenada, ao longo de 22 microcontos inspirados nos Arcanos Maiores.

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