Para Lá do Véu
De Diogo Ogando
Desde criança que tenho um sonho recorrente. Viajo para um local frio, escuro, desconectado de tudo, abraçado pela morte. Consigo sentir-lhe o cheiro, mas não o cheiro da morte física. Esse cheiro chegaria a ser reconfortante, como o de carne em putrefação, a sinalizar o que seria um fim de vida. O cheiro que sinto, em vez disso, é o da decadência espiritual, onde tudo o que foi — e já não será — se decompõe.
Nesse plano, reina o silêncio, apenas interrompido pelos lamentos daqueles que partiram sem despedida, dos que não seguem em frente, dos condenados ao esquecimento e à eterna solidão. O que vejo não pode ser descrito como uma imagem, mas como um estado. A escuridão imensa é intercalada por breves contornos de cor púrpura, onde ocasionalmente se destacam pontos vermelhos, como olhos fixos e serenos, mas atentos à minha presença.
Este mundo não é nosso, não é meu. Quando acordo deste sonho — geralmente exausto, confuso ou assustado… —, é como se estivesse acordado há dias.
Era normal que tivesse tentado fazer sentido de tudo isto. Mas nunca O quis trazer comigo.
Os meus pais tentaram todas as terapias, todos os psicólogos a psiquiatras, todas as suas drogas para desequilíbrios mentais. Houve também bruxos, xamãs e curandeiros pelo meio. E padres… Esses eram os piores. Os que mais O sentiam e se aproximavam Dele. Os que quase O roubavam de mim. Os cabrões.
Ainda me lembro de um deles, um suposto exorcista de renome na Escócia, representante da Igreja Católica Apostólica Romana. Coitado do desgraçado… Tão perto e tão longe. O ataque de coração fulminante durante o exorcismo foi um toque de mestre, admito. Mas o pior é o que lhe acontecerá depois. O que Ele lhe fará do outro lado. Eu tentei avisar o Sr. Padre, mas ele escolheu ignorar-me, tal como Deus ignora as nossas preces.
É frequente visitar o Sr. Padre do outro lado, embora eu não esteja no comando. Vejo coisas que não consigo explicar, que não fazem sentido. Suplico-Lhe que me faça compreender, mas Ele ignora-me, tal como o idiota do escocês…
Ainda me sinto aqui, por enquanto, mas não sei por quanto mais. Quando Ele conseguir passar o Véu por completo, vai desfazer-se de mim como uma luva usada. E a morte, nessa altura, vai parecer uma promessa doce.
Todas as noites, volto para esse local de terrores constantes. E, aos poucos, comecei a gostar… As lamúrias já não me afligem. Acordo sedento por lá voltar. No início, sentia-me sujo, usado pelo condutor do meu corpo. Agora, é algo que me dá gosto. Entrego-me a Ele.
O anoitecer, assim, tornou-se algo por que ansiar. Vou para a cama de barriga vazia e cheio de drogas para adormecer. Com sorte, em pouco tempo, vou deixar de precisar delas. Pensando bem, já nem me lembro da última vez que acordei. Estarei vivo ainda? Ou permanentemente no outro plano? Terei passado o Véu, ou terá Ele passado para este lado?
Ele… Eu… Tudo se confunde, tudo se une.
Em breve, serás só mais um. Uma memória. Ninguém.
Já eu, serei todos.
SOBRE O AUTOR
Diogo Ogando
Diogo, nascido e criado em Lisboa, sempre viajou pelo plano espiritual. Visitou lugares descritos por alguns dos seus autores favoritos, como H. P. Lovecraft, Edgar Allan Poe, Stephen King e Pedro Lucas Martins. A título pessoal, também percorreu muitos outros — cenários por si imaginados, descritos e construídos.
O seu maior desejo é, um dia, dar a conhecer a mais pessoas os terrores que o assombram. A morte, o esquecimento e a loucura são os seus pilares favoritos para uma boa história de terror.
Mas, apesar de tudo, é um doce de pessoa.
Ou, pelo menos, gosta de acreditar que sim.







