Acomodação em Sobrelotação

de Telma Simões

 

Tinha sido esta noite.

Ouvia os passos do pai a caminho da casa de banho. Estava frente ao quarto dela, do outro lado do corredor. A seguir, entrava ela, ou tinha de esperar que a mãe terminasse, e iria atrasar-se. A irmã mais velha era a última: entrava mais tarde e chegava mais tarde; tudo nela era tarde.

Sentia-se tão confortável, tão quente. Os lençóis e cobertores abraçavam-na como um gesto de afecto, uma festa de mão calorosa. Sonolenta, divagava nessa sensação de aconchego até que a porta da casa de banho se abriu, e o pai arrastou novamente os chinelos de volta ao quarto. Era curioso como se conheciam as pessoas pelo andar.

Deixou-se afundar cada vez mais naquele ninho aveludado e quente. A diferença de temperatura era notável quando expunha a pele ao ar.

Não… Só mais cinco minutos…, dizia a si própria.

Era a frase proclamada por muitos nestas alturas: um adiar daquilo que custa, a relutância em partir para a dor. Os membros, a mexerem-se, procurariam apenas mais calor, preservariam o bem-estar, enquanto os pulmões se forçavam a encher, para dar o salto. 

O arrastar dos chinelos do pai voltou ao corredor e parou à porta do quarto dela — que ficava também junto à porta de casa. Mas ela sabia. Antes de sair, o pai entrava sempre no quarto dela. Aconchegava-lhe os cobertores à volta do corpo, como se fosse uma lagarta, e dava-lhe um beijo de bom-dia. Acordava-a para não colidir com a mãe e não haver «cenas» pela manhã. Conflitos próprios da acomodação em sobrelotação.

A barba dele estava sempre molhada; o beijo era um choque térmico — afável, mas desconfortável. Talvez fosse essa a ideia. Ele esfregava-lhe a cara nos cabelos, no pescoço, e beijava-lhe o rosto de forma pesada, empurrando-o contra a almofada. O cheiro a água-de-colónia espalhava-se à sua volta. 

Depois partia, e ela sorria.

Numa contagem decrescente mental, já a antever o frio que viria quando se levantasse e se colocasse ao ar, sentiu aquela pontada, aquele rabiar na cicatriz que acontece sempre que há mudança de tempo. As mamas ardiam, as suas senhoras de Fátima prevendo a temperatura ambiente. A cicatriz… Sim… A mastectomia… Aos 33. O pai tinha partido quando ela tinha 22. Tinha agora 44. A irmã, com mais 17 do que ela, e doente, haveria de chegar mais tarde.

Presa, depressa entendeu que já não podia levantar-se. A consciência foi desconcertante, vertiginosa. A memória deu lugar ao presente. Tinha sido esta noite. E o quente dos lençóis tinha a temperatura do veludo do caixão. 

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945


SOBRE A AUTORA

Telma Simões

Nascida nos anos 80 e natural de Almada. Começou a escrever ontem — talvez numa crise de meia-idade, talvez num exercício contra a dislexia. É a forma que encontrou para combater a apatia.
Escreve sobre o desconforto, sobretudo o seu, mas, como sofre do síndrome da vergonha alheia, acaba por sentir também o desconforto dos outros.
Parte da ideia de que é no desconforto que encontramos a nossa imbecilidade, mas é também nele que encontramos a nossa humanidade.
Usa o terror e a ficção científica como veículos para a mensagem que se esforça por transmitir.

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