O Descanso da Anfitriã
de Ricardo Alfaia
A madrugada lavava a cara com os primeiros raios de sol. Nas árvores, trocavam-se conversas animadas entre pássaros impacientes de começarem o dia. O bosque espreguiçava-se. Só o palacete, escondido entre carvalhos centenários, permanecia mudo. Pagava o tributo da noite. Na sala, adornada em estilo Art Déco, a anfitriã, reclinada num sofá de veludo em forma de concha, apreciava, por fim, o silêncio e a calma. Os sapatos jaziam díspares no chão, e os pés repousavam no tecido macio enquanto se afagavam mutuamente. Segurava, na mão esquerda, uma boquilha, na qual um cigarro ardia. Lascivo, vagaroso, carente de atenção. Pelo soalho de nogueira, vinho derramado, garrafas despedaçadas, diversas roupas e corpos abatidos pela noite boémia. Desviou o olhar para a janela. Observava a luz, que agora raspava ao de leve a fonte no parque, quando notou, com alguma estranheza, uma jovem que corria pelo jardim. Nua. Ergueu um pouco o nariz; ajeitou com um só dedo uma madeixa de cabelo que se soltara e, com a língua, humedeceu os lábios. Tocou a sineta.
Logo, apareceu um mordomo à porta.
— Minha senhora?
— Uma fugiu. Solte os cães.
SOBRE O AUTOR
Ricardo Alfaia
1969 (Maternidade Alfredo da Costa, Lisboa) > Évora > Lisboa > Évora > Nuremberga > Ingolstadt > Weichering > Santa Cruz.
Empregado de mesa > cozinheiro > condutor > barman > casamento > assistente de fotografia publicitária > filho > fotógrafo > gerente de restauração > designer gráfico > filho > filha > web designer > autor > cofundador da Fábrica do Terror.
«O Homem planeia, e Deus ri.»







