A Capela

de Maria Silva

 

Cecília olhou-se ao espelho uma última vez. Baixou os olhos ao reconhecer o reflexo de uma dúvida que tentara expulsar. Pesando-lhe a própria existência, atirou o véu sobre a cabeça.

A irmã entrou no quarto com passos que só Cecília era capaz de ouvir.

— Estás pronta? — perguntou sem cerimónia.

Cecília levantou-se e, sem dizer uma palavra, passou pela irmã, saindo do quarto e embrenhando-se no corredor frio e silencioso. Ela seguiu-a, levantando do chão o alvo véu que se fazia arrastar — uma coisa morta, esmirrada, serpenteante.

O corredor parecia ter quilómetros, que Cecília percorria com a lentidão de quem deixa a própria pele para trás. Não fosse o bater compassado dos saltos na pedra dura, juraria flutuar. A luz das tochas distorcia as sombras ali enclausuradas: a de Cecília revelava-se longa, dançante, quase em fuga; a da irmã mostrava-se fixa, contida, segura. O corredor, que sabiam ser direito, virava-se e envolvia-as como um caleidoscópio, projetando as formas de Cecília sobre si mesmas, acentuando simetrias inexistentes ao ponto da fusão e eliminando imperfeições geométricas, típicas daquilo que é humanamente criado.

A meio da travessia, Cecília estanca o passo. A irmã aguarda com solenidade. Sabe o que se segue. Também ela já foi aquela mulher; também ela duvidou. Sem levantar a renda que lhe cobre a face, Cecília vira o corpo ligeiramente, torcendo a cintura para encarar quem lhe segura na ponta do véu. Fá-lo com os olhos e com o peito, rasgado. O rubor que lhe enche as bochechas raia-lhe agora a albugínea, refratado pela água que se acumula, dominante, na fronteira. Cecília pede, com todas as suas forças. Roga palavras caladas com o corpo, com as feições, com a alma escarlate que se apodera das vistas. O estômago revolta-se dentro da carne, gritando-lhe que pare, que fuja, que se prostre no chão. O nojo atropela-lhe os sentidos, as emoções e o raciocínio. Chorando lágrimas que não chegaram a deixar o leito em que nasceram, implora à irmã que não a force a transpor a porta que se avizinha.

A irmã olha, piedosa, mas finge não ver. Cecília percebe que reconheceu em si aquilo que já foi, e que lhe fere o coração assistir à sujeição que está para lá daquela porta. A irmã, porém, é experiente e, por isso, sábia. Com a voz empedernida, transparecendo uma certeza inabalável, força-se a esquecer a pena momentânea para se focar no costume, na tradição, na lei consagrada:

— Não queiras trocar uma vida de certezas por uns segundos de alívio.

Cecília ouve, e as palavras arrebatam-lhe o espírito. Ainda sem chorar, deixa correr a água dos olhos ao perceber que a esperança acabara de morrer. Destorce o corpo e retoma o andar, ainda leve, ainda hesitante. A irmã acompanha-a, diligente na sua função, como se não passasse de um vulto. 

Sem que se aperceba, Cecília chega à porta. Não tem forças para dar o último passo, e a irmã sabe disso. Por isso, é ela quem marca, com força, o som do último passo dado, o som do tacão certeiro a ecoar rigidamente pelo chão. 

Cecília sente a deslocação do ar que lhe diz que o corredor se abriu. As luzes ofuscantes dos incontáveis candelabros que pendem do teto da capela e que se erguem do solo sagrado ofuscam-lhe a visão, até agora embalada pela impura escuridão do corredor. Vozes indistintas saúdam a sua entrada através de suspiros admirados e incontidos. Não ouve o que lhe dizem, mas os movimentos medidos das bocas, escondidos por trás de mãos mais respeitadoras do que a índole dos seus donos, comentam a sua chegada como se a despissem. Um órgão berra nuvens de uma composição que chegam até Cecília em breves murmúrios cansados, cuja mensagem não compreende e que procura manter indecifrada. 

Sem que tivesse dado por isso, tornara a andar. Os saltos já não fazem barulho, abafados pelo tapete pérola que a conduz, em linha reta, até ao altar. A irmã segue atrás, saudando, com sorrisos educados e orgulhosos olhares, quem se encontra na capela para honrar a ascensão. Cecília caminha, de cabeça levantada, corpo hirto e olhos vazios, sentindo uma nova onda de repulsa invadi-la assim que distingue o borrão de um homem, de pé, à frente do altar. Só depois de subir o primeiro degrau é que a irmã a deixa, para se sentar na primeira cadeira da primeira fila. 

Do outro lado do véu, Cecília vê uma fileira de dentes ameaçá-la com um sorriso sincero. A cara dele é uma mescla de olhos, boca e nariz que se confunde e que muda de sítio de cada vez que pestaneja. O cheiro é horrendo: o de um animal de pocilga coberto de lama e das próprias fezes, que há várias gerações perdera a capacidade de reconhecer água limpa como Cecília.

Cecília sente-se desfalecer quando ele lhe levanta o véu. Nem por isso o vê mais nítido. É um saco de ossos pútridos que, agora, se aproxima dela, de lábios fechados num perfeito coração pulsante, agarrando-a pelos ombros e forçando-a a permanecer onde a quer. O refluxo gástrico crava-se na garganta de Cecília, mas ela escolhe não o deixar vencer. A contragosto, sente a respiração do homem roçar-lhe os lábios, bafienta e agreste. Cecília entreabre a boca a custo, aceitando o que tem de fazer. Os aplausos ecoam pela capela, a música chega ao seu ápice e até os candelabros parecem queimar com a intensidade do Sol. 

É então que acontece.

Cecília aceita-o, abrindo a boca num ângulo impossível e tragando-lhe a cabeça de uma só vez. O corpo decapitado contorce-se em espasmos, cobrindo-se de sangue que jorra do buraco. Cecília engole, sofregamente, o que lhe restava na boca, já reduzido a uma papa viscosa pelas enzimas que as suas glândulas salivares segregam. Finalmente compreendendo o destino que lhes fora votado à nascença, Cecília volta-se para a irmã, que chora de felicidade, dizendo-lhe, por entre a viscosidade rubi que lhe escorre queixo baixo: 

— Tinhas razão. Não sabe assim tão mal.


SOBRE A AUTORA

Maria Silva

Maria Silva escreve desde que se lembra. Sempre adorou estórias e culpa o Acordo Ortográfico de 1990 por se ter licenciado em História, em vez de ter seguido um curso de Literatura. Perseguiria esta sua inclinação mais tarde, concluindo um mestrado na área e uma pós-graduação em Tradução.

O terror é o seu género de eleição. Interpreta-o como concomitantemente dramático e cómico, maravilhando-se com a possibilidade de provocar medo e riso sem comprometer nenhum.

É obcecada por folclore popular, pelas criaturas que o povoam e pelas gentes que o (re)constroem. Acredita que a imaginação coletiva é um dos principais motores da cultura regional, nacional e internacional.

Adora fantasmas, sobretudo as representações oriundas da Ásia Oriental, mas não sabe explicar porquê.


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