Sementeira
de Joana Bastardo
Não há suficientes — oxigénio, nutrientes, espaço. Há apenas esta pressão insuportável, que me molda e me distorce. Somos demasiados. Os meus irmãos cresceram com ainda menos do que eu e ainda mais depressa. Poucos sobrevivem. Malformados, desprovidos de propósito, perpetuam-se num interminável círculo canibalesco E ainda assim, há cada vez mais. Deles, desta fome, desta pressão.
Por momentos, lembro-me de mim e busco pela saída. O nosso esconderijo foi detectado, perturbado. É apenas uma questão de tempo até chegarem. Vasculho os limites, contorço-me entre seres disformes, alguns fundidos à nascença, com feições indistinguíveis, num propósito inalcançável. E persigo o meu.
Com um som de rasgo húmido, o céu negro rompe-se. Pânico. Até os que assumi sem vida estremecem. Claridade invade o nosso santuário. Todos mergulham, escapando ao ar frio e tóxico. Os mais fracos mirram ao toque da nova atmosfera, os seus gritos reverberam em ondas. A pressão torna-se incomportável, parece impossível mover-me. Distendo-me entre eles e o limite. Dilacero-me em busca da passagem. Uma vibração alienígena chega-nos da abertura e percorre-nos. Perco a aderência, tenho de começar outra vez. Com cada nova vibração, uma nova onda agónica. Esgotou-se o tempo. Não cumprirei o meu propósito. Um vulto metálico cliva a cavidade de um lado ao outro, deixando um rasto incandescente para trás, e mais de metade dos meus irmãos desaparece. Acabou. Uma nova vibração, e o espectro prateado ressurge, directo a mim.
Agarro-me, enquanto golpeia a barreira.
Uma nova força invade o espaço, puxando-me em direcção à fenda, e, do outro lado, encontro um mundo escarlate. Abundante. Com oxigénio, nutrientes e espaço infinitos. Consegui! Vou cumprir o desígnio em nome de todos.
A corrente que me carrega intensifica-se, arrasta-me para uma nova câmara, onde as paredes se abaúlam e contraem. O fluxo turbulento sacode-me, choco contra paredes rugosas até atravessar um portal em forma circular. Vejo novas paredes que se dilatam, mais e mais. Sinto a energia que se acumula em meu redor. Dentro de mim.
Olho-me. Deixei de ser uno. Sou dois. Quatro. Fendemo-nos naquele impasse. Somos oito.
E, quando as paredes se contraem sobre nós, somos livres para cumprir o nosso intento, para criar novas colónias, um tecido de cada vez.
*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945
SOBRE A AUTORA
Joana Bastardo
Joana Bastardo nasceu em 1989, no Porto. Agora médica de família em Vila Real, escreve à margem do quotidiano — em minutos roubados e madrugadas insones. Autodidata, dedica-se à ficção literária e às múltiplas facetas do terror, com uma voz lírica e fragmentária que explora trauma, culpa e identidade. Encontra na escrita uma forma de exorcismo — e de sobrevivência. Entre os seus projetos, destacam-se Linha Vermelha, romance de terror psicológico sobre uma futura cirurgiã em colapso, e Tarot Literário, jornada não linear de uma alma condenada, ao longo de 22 microcontos inspirados nos Arcanos Maiores.







