Reconstituição

de Diogo Mota

 

As minhas mãos tremiam. Não de frio. Os dedos ardiam, pegajosos e molhados de sangue. Esforçava-me para limpar-lhe a cara para atenuar a impossibilidade da tarefa.

O olho esquerdo já repousava no lugar, com a respetiva suturação. Menos um. O outro deu-me demasiado trabalho e tive de adiar — a minha preocupação residia na boca. Nunca fui de coser roupas, e muito menos partes corporais. Devem ter-se esquecido. 

Tinha a fotografia ao lado, mas não precisava dela. Mais de oito anos passaram desde que o trouxe da maternidade e tive esse tempo para estudar meticulosamente todos os traços da sua cara. 

Com a ponta dos dedos da mão esquerda, segurei os lábios e coloquei-os na melhor posição que consegui. O silêncio ajudava. Apenas a respiração ofegante ecoava no hangar. Ninguém diria que dezenas de pessoas se ajoelhavam, cosendo afincadamente e em simultâneo as suas crianças. Agarrei na agulha, já com o fio preso, e espetei-a no lábio superior. Atravessou a carne e emergiu um pouco acima. Voltei a espetá-la no lábio. Repeti o processo até atingir o resultado esperado — ou algo parecido. O sangue tinha-se esgotado. Isso não me fazia tremer menos.

Seguiam-se o nariz e as orelhas. Não estava preocupado com as orelhas. O contacto que faziam com a cabeça era pequeno, e pensei que, depois da experiência com a boca, seria muito fácil. Então, fui para o nariz. Erro. A agulha recusava o nariz. A forma como se encaixava na cara também não era de fácil réplica, mas tentei. É verdade que o trabalho não ficou perfeito, nem sequer adequado, mas foi aceite, e isso é que interessava.

Peguei na orelha esquerda e, com quatro ou cinco pontos, fixei-a. Perfeito, tal como esperava. Foi quando fui para agarrar a outra orelha que ouvi a sirene. Larguei a agulha e olhei à volta. 

Dez tinham terminado. 

Oito não — eu entre eles. 

Dez crianças levantaram-se com caras intactas e abraçaram os assassinos que as coseram. A minha e mais sete crianças derreteram-se em poças vermelhas. 

Vi-a entrar pela porta do hangar. Olhou-me, levou as mãos à cara, gritou e chorou. Normal, perdemos um filho. Mas esperei que se recompusesse rapidamente. Ainda vi passarem-lhe uma agulha para a mão antes de os meus olhos caírem. O nariz seria o próximo.


SOBRE O AUTOR

Diogo Mota

Diogo Mota nasceu em Lisboa, em 1990. Engenheiro de formação, não de profissão. Leitor de dark fantasy, horror e mistério. Viaja sempre que pode, mas é em Lisboa que mais escreve, acompanhado por um cão que, involuntariamente, ou não, fornece o melhor material para histórias de terror.

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