A Favorita

de Snu Tilbacke

 

Apalpas a parede à procura do interruptor, mas, antes de conseguires escapar da escuridão, o monstro aparece.

Sem pensar, corres e saltas.

Enterras-te.

Os teus dedos afogam-se em ondas douradas. As tuas pernas rodeiam-lhe a cintura.

Ele desmantela-te peça a peça. Com mãos meigas.

Constrói-te de volta à forma em cinco minutos.

Não tão perfeita como antes, mas tu não pensas sequer no antes.

Antes? Antes era um estado despido de presença.

Agora, existes. Agora, és vista. Agora, és ouvida.

 

*

 

Não tens pai. 

Ele não te quer por filha, mas és forçada a carregar a mesma cara e o mesmo apelido.

É uma tortura debilitante: não queres aquilo que não te quer, mas és obrigada a aceitar aquilo que nunca quiseste receber.

Ninguém te entende, excetuando o teu monstro.

Ele é teu gémeo. Também ele é indesejado.

Também ele arrasta um apelido que odeia.

Beijas-lhe o pescoço.

Debaixo dos teus lábios, dois sinais de nascença, que ele lamenta serem iguais aos do próprio pai.

Não. Tu és dona deles. São teus agora.

 

*

 

Ele encosta os lábios à tua orelha. Sussurra-te segredos.

Tu arrepias-te a cada consoante.

Sonhas acordada.

Queres a língua dele no teu pescoço.

Pensas: não agora, mais tarde.

Sabes que ele vê a renda cor de pêssego, e os teus mamilos, como ameixa pingada em pele branca.

 

*

 

O pincel escorrega como se guiado por mãos robóticas. É ele que te guia.

Ele rouba-te os pensamentos, mas tu gostas de não pensar.

Ele devolve-te a tarefa. Tu lês as anotações escritas nas margens.

O caracol da letra O enrola-se contra a ponta dos teus dedos.

Dezanove de vinte. Um de muitos. Um de demasiados.

Os murmurinhos começam a mudar de tom.

Começam a chamar-te por um novo nome: a favorita.

 

*

 

Ele não se assusta com o teu novo título, mas não fica feliz com a tua atitude.

Tu corróis com uma solidão inexplicável.

Retornas à criança que foste.

Por momentos, pertences ao antes, e não há nada que ele abomine mais do que o antes.

Justificas-te com a verdade: eles empurram-te para as margens.

Sempre foste diferente. Não tinhas o que os outros tinham.

Mas, desta vez, és diferente porque tens algo que mais ninguém tem.

És especial.

 

*

 

Ele recebe palmadas congratulatórias no topo das costas e um novo rótulo pomposo: mentor. Engraçado como rola na língua como um elogio.

 

*

 

É verão.

As lágrimas rasgam leitos nas tuas bochechas.

Ele tira o caderno e começa a desenhar-te.

Envolta em lençóis verdes, és uma borboleta a sair do casulo.

Sentes-te bonita. Mais mulher.

Deixas que ele capture o teu sorriso. Não te importas de o perder.

 

*

 

É o vosso último ano juntos.

Os teus sentimentos desfazem-se em aguarelas.

Levantas a mão e sentes o peso de mil olhos.

Ele debruça-se sobre a secretária e examina a amálgama de cor no centro do papel.

Aponta para o espaço em branco e murmura entre dentes: 

Não te esqueças das margens.

Margens, margens… Ele reflete-se em ti como um espelho.

Tu quebras em mil pedaços.

 

*

 

Aos dezasseis, arranjas o teu primeiro namorado.

Tem um coração gentil. Tenta domesticar-te.

A boca dele é quente.

Lambe-te os ombros como uma devoção canina.

Mas cada beijo é só um beijo.

Ele sacode-te o pó das ancas. Deixas que ele te trate como uma relíquia antiga.

Quando ele te penetra pela primeira vez, apenas sentes um beliscão.

É temporário, mas é um mal com um trago familiar.

Ele usa-te.

Quando és dele, és um antes depois do depois.

Encontras conforto nesse facto.

 

*

 

Na universidade, descobres que há outros monstros.

Prendes o cigarro entre os dentes e contemplas o homem à tua frente.

Confias nele. É teu irmão.

Estreias a tua história sem grandes fanfarras.

Choras porque as palavras te caem por entre soluços.

Ele interpreta a tua boca aberta como um pedido.

Faz de ti um museu de peles descartadas.

 

*

 

Já nem te lembras da última vez em que os teus dedos se embrulharam à volta de um pincel.

 

*

 

Não queres voltar a casa, mas as pernas guiam-te como se puxadas por uma força maior.

O teu monstro morre.

No funeral, dás os pêsames à viúva. Ela agradece e pergunta-te quem és.

Ponderas entre os diferentes tempos verbais.

Optas pelo passado.

Fui ex-aluna.

Ofereces o teu nome como um aperitivo, por mera educação.

Sempre pensei que eras uma personagem, que eras fruto da imaginação dele, confessa-te ela.

O coração tropeça no teu peito.

O tom da interação muda, é amargo.

Ela cospe-te na cara.

Ele tinha um retrato teu na mesinha de cabeceira.

Antes que possas reagir, ela vira-te as costas. Instantes depois, o padre dá início à cerimónia.

 

*

 

Refugias-te num dos cantos do salão.

Tentas passar despercebida, mas falhas redondamente.

Os filhos dele desconjuram-te com olhares (provavelmente porque se lembram de te ver nos corredores da escola; talvez tenham ouvido rumores).

Permaneces enraizada no mesmo lugar.

Se há pessoa que merece aqui estar és tu.

Tu, que és obrigada a aceitar aquilo que nunca quiseste receber.

Tu, a borboleta capturada.

 

*

 

No cemitério, vês o teu monstro desaparecer na escuridão da terra.

Sem pensar, corres e saltas.

Esgravatas a superfície do caixão até a madeira ceder ao teu toque.

Abres a tampa com ímpeto.

Preparas-te para o esbofetear, mas és surpreendida.

O corpo dele não tem matéria, é pura luz e fogo.

Subitamente, aprendes que és feita de areia.

O calor consome-te.

És vidro.

Estilhaças.

Ninguém sabe o que fazer com os teus restos.

Ninguém quer descer à escuridão para te recolher pedaço a pedaço.

 

*

 

Acordas mergulhada em escuridão.

Estás encurralada no antes.

Ouves passos.

O teu peito enche-se de esperança.

A maçaneta redopia, e a porta abre-se.

Sem pensar, corres e saltas…


SOBRE O AUTOR

Snu Tilbacke

Snu Tilbacke é um alter ego nascido da necessidade explosiva pela procura da liberdade de expressão.

Todos os seus contos são vagamente inspirados por histórias verídicas, o que é, em parte, uma das razões para a sua existência misteriosa.


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