Escuta Activa

de Liliana Duarte Pereira

 

As borrachas gordas encaixavam-se nos ouvidos, cobrindo o espaço existente, prontas para estancar qualquer som. Tinham de as colocar sempre que estivessem em locais passíveis de conversas onde ouvidos tísicos não são bem-vindos. Sem a atenção voltada para a vida dos outros, ouviriam apenas a miséria dos seus pensamentos. Esta era a única coisa que precisavam de escutar, a única regra que precisavam de cumprir. 

Era fácil saber quando a curiosidade levava a melhor, porque ouvidos quadrilheiros acompanham com língua solta. Descoberto o incumprimento, os infractores eram cirurgicamente tratados. Os abanos deixavam de configurar no cenário, e a pele era costurada para tapar os labirintos afoitos. Os pedaços externos eram tratados para servirem de pingentes, que teriam de carregar num cordão ao peito. A honra de ser um exemplo. 

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945

SOBRE A AUTORA

Liliana Duarte Pereira

Liliana Duarte Pereira, nascida a 30 de junho de 1986, é licenciada em Política Social através do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Sempre quis preparar os mortos para os seus funerais, mas não vingou. Tem fobia a pessoas falecidas e a portas entreabertas. Gosta de animais, de fazer doces, de rir de coisas mórbidas e de escrever.

Integrou as antologias Sangue Novo (2021), Rua Bruxedo (2022) e Sangue (2022).

Venceu o Prémio Adamastor de Ficção Fantástica em Conto (2022) com «O Manicómio das Mães», da antologia Sangue Novo.

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