Ouro sobre Azul
de Joana Bastardo
Apenas uma janela lascada protege o quarto — com o seu odor a lilases e terra húmida — das gotas de chuva que chicoteiam a janela. Ele segue-me até à cama, de cabelo louro reluzente à chama da lamparina. Reconheço o tear da minha mãe nos lençóis, ancoro-me na trama firme. Ele gira o tronco na minha direcção, com olhos turquesa trancados nos meus.
Só depois vêm as mãos, descendo-me pelo pescoço, pelo peito, contornando-me as ancas.
Existe mais do que um tipo de fome. E a dele apenas sabe crescer.
Então, abro-me. Trago-o para dentro. Fundo. E mais fundo ainda.
Até que cordas de êxtase se rompem de mim.
Vão, rodeiam-no e, quando regressam, é o sabor da maçã madura que me preenche.
Abro os olhos. Estou sozinha. Os lençóis da minha mãe, imaculados. Nem uma gota desperdiçada.
Sorrio.
Teremos outro ano de colheitas fartas.
Folhas de ouro sobre fruto azul.
*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945
SOBRE A AUTORA
Joana Bastardo
Joana Bastardo nasceu em 1989, no Porto. Agora médica de família em Vila Real, escreve à margem do quotidiano — em minutos roubados e madrugadas insones. Autodidata, dedica-se à ficção literária e às múltiplas facetas do terror, com uma voz lírica e fragmentária que explora trauma, culpa e identidade. Encontra na escrita uma forma de exorcismo — e de sobrevivência. Entre os seus projetos, destacam-se Linha Vermelha, romance de terror psicológico sobre uma futura cirurgiã em colapso, e Tarot Literário, jornada não linear de uma alma condenada, ao longo de 22 microcontos inspirados nos Arcanos Maiores.







