Lar do Angélico Repouso

de Nuno Gonçalves

 

 

O dia favorito de Maria dos Anjos era quando chegava um novo velho. Quando entravam no lar, traziam consigo uma identidade:

— Este é o meu pai. Chama-se Joaquim e é diabético.

Maria dos Anjos gostava do ritual de arrancar o nome ao corpo. 

Rapava-lhes o cabelo, tirava-lhes os dentes e as roupas. Joaquim, por exemplo, tinha cabelo forte e demasiado comprido atrás, dois molares e três mudas de roupa. Passava aquela noite a criar uma peruca, uma dentadura e a catalogar tudo sob o nome. Joaquim ficou guardado numa caixa de cartão, e o velho juntou-se aos outros.

Nesses dias, aproveitava também para ir lavar os velhos ao rio. Eram os únicos dias em que saíam. Seguiam-na ordeiros, em silêncio, e ficavam sentados junto à margem, à espera da sua vez.

Depois de levar um deles para a água, Maria dos Anjos cantava canções que tinha ouvido da sua mãe, enquanto esfregava a pele rija contra as pedras. Em seguida, estendia o velho já lavado na relva e continuava com o seguinte.

Tremiam muito enquanto a pele não secava, e o ritmo dos ossos a tiritar ditava qual a canção que se seguiria. Os velhos, quando envelhecem juntos, sincronizam os tremores. 

Era também essa a oportunidade de mudar as mantas dos quartos e confirmar se seria necessário contratar novamente a desratização. Quanto às baratas, já desistira de as eliminar.

Esses eram os dias bons. Os maus coincidiam sempre com a visita da irmã. 

Entrava com o nariz a postos, a tentar cheirar todos os cantos e a abrir portas que deveriam estar fechadas. Era difícil convencê-la a manter-se na sala de visitas.

— Bebe um chá. Eu já vou buscar a mãe.

Maria dos Anjos procurava um dos velhos que parecesse mais desperto e abria a caixa com o nome: Maria da Conceição.


SOBRE O AUTOR

Nuno Gonçalves

Nuno Gonçalves devora livros há 30 anos. O prazer da leitura fez crescer a vontade de um dia ver as suas próprias palavras no papel, encadernadas, à espera de um leitor. O caminho escolhido foi outro, e a Medicina atraiu-o mais do que as Letras. Manteve a ligação à literatura, retomando os hábitos de leitura e dinamizando um blogue de crítica literária durante alguns anos. Depois de iniciar uma nova caminhada na escrita de ficção, venceu o prémio António de Macedo em 2022 e foi o finalista português do concurso de microcontos da EACWP em duas ocasiões (2022 e 2023).

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