Selma
de Rita Santos
— Como fazemos? Olho para a câmara?
À minha frente, sentava-se uma mulher longilínea. Não aparentava mais de 30 anos. Cruzara as pernas, deixando a racha do vestido revelar a gambeta até à anca. Tinha a «lenda viva» da ultra-estética à minha frente, mas ainda me custava a acreditar que era trisavó. Com um penteado despenteado estudado, Selma alternava a orelha atrás da qual prendia o cabelo, que caía solto até à cintura.
— Selma, sabemos que é a mulher viva com o maior número de cirurgias plásticas. De acordo com o seu registo clínico, muito obrigado por me conceder acesso, realizou 673 cirurgias e já tem outras programadas, entre procedimentos invasivos e não invasivos. Diga-me, como é que começou este processo? — Ela foi transparente ao telefone. Decidi que lhe devia a mesma honestidade.
— Começou depois do nascimento do meu primeiro filho. Sentia-me mais morta do que viva. Raízes do cabelo brancas, cheirava a leite azedo, mamas caídas… Nunca consegui perceber como é que o meu marido manteve o interesse em mim.
— Isto em 1973?
— Mmm… sim.
Foi a primeira de várias hesitações durante a entrevista. Selma apresentava-se como um livro aberto, mas revelava inconsistências sempre que mencionávamos a idade. Durante a entrevista, aquele número grande e redondo parecia ser a única coisa de que Selma tinha medo. Certamente não considerava as implicações éticas e morais de todos os procedimentos que fizera. Selma fez uma descrição imaculada da sua «primeira», nas palavras dela, apenas seis meses depois do nascimento do primeiro filho. Removeu uma mancha castanha perto de um olho. No mês seguinte, reposicionou e limou um canino mais saliente. Selma confidenciou-me que sempre fora muito consciente da imperfeição e que raramente se deixava fotografar a sorrir. Dias depois, cruzou-se com uma amiga. Ao que parece, o que esta lhe disse marcaria a sua vida de forma indelével: estava bonita e parecia diferente, embora não soubesse apontar o motivo. O elogio terá levado a uma tomada de decisão: livrar-se-ia de todos os defeitos. Pegou num marcador vermelho e assinalou com um X todas as rugas, falhas e oportunidades de melhoria no corpo. De seguida, pesquisou pelo melhor cirurgião plástico na cidade e conduziu até ele. Abriu o vestido de envelope e mostrou-lhe o trabalho que fariam juntos. Selma fala deste período com uma aura nostálgica. O olhar perde-se por instantes num ponto indefinido da memória, enquanto recorda o primeiro cirurgião. Jura que, nesta fase, não pensava tornar-se uma nova Cher.
— Estive a rever as suas fotos, e perdoe-me se estou equivocado: ficou mais alta, entretanto?
— Bom golpe de vista! — exclamou, orgulhosa.
Para Selma, a cirurgia de alongamento ósseo foi uma das experiências mais dolorosas, até em comparação com os quatro partos.
— Mas valeu a pena — acrescentou, mostrando a identificação digital holográfica, que indicava 1,82 m. Antes disso, lamentou, com apenas 1,62 m, não se distinguia na multidão.
Se esta operação foi um sucesso vitorioso, nem sempre a sorte esteve do seu lado. Uma intervenção de rotina, para manter a coloração da íris verde-esmeralda, deixou-a cega do olho esquerdo. Esteve dois anos na lista de espera para um transplante de globo ocular. Na altura, o banco público de doação de órgãos para tratamentos cosméticos de Milão apenas permitia a utilização por cidadãos nacionais. O acesso de uma não nacional, ademais tão controversa quanto Selma, levou à queda de um ministro e à revelação de que muitos dos órgãos doados pertenciam a pessoas à margem da sociedade, obtidos sob extorsão das máfias da beleza.
Outro momento que alterou negativamente a percepção pública de Selma deveu-se à suspeita de participação num tratamento de rejuvenescimento de pele com injecção de células estaminais extraídas do útero, com risco elevado para os fetos. Apesar da má publicidade, não há evidências de que o projecto tenha existido além da alegação fantasiosa de um tablóide decadente. Selma recusa-se a comentar.
Uma intervenção que não posso deixar de referir é a mais óbvia a olho nu: o longo cabelo de Selma resulta de um transplante fio a fio, de uma doadora viva nascida na antiga Índia, que sofreu a perda total do cabelo após o procedimento. Considerada a cirurgia mais cara de sempre, juntou uma equipa de 60 profissionais de saúde e foi exibida em streaming, no formato pay per view, durante 56 horas. Fontes anónimas referem um contrato milionário à custa de uma mulher pobre, que recebeu o equivalente a dois salários mínimos no seu país.
— Estive a fazer contas. Considerando a inflação, a Selma terá gastado o equivalente a 13,31 milhões de dólares em cirurgias para obter o corpo actual, sem incluir custos de deslocação. O valor corresponde ao PIB de uma das colónias mais pobres de Marte. Não lhe parece demasiado?
Notei-lhe uma alteração no rosto. Ajeitou o corpo no sofá e prendeu o cabelo atrás da outra orelha. Tempo para preparar a resposta, por um lado; para ajustar o nível de charme, por outro.
— E? Foi dinheiro dos meus ex-maridos.
De facto, na sua longa história de alteração corporal, os ex-maridos não podem ser esquecidos. Se os primeiros, por estarem ligados à bolsa ou às energias não renováveis, lhe financiaram o vício, Selma descobriu ser mais proveitoso casar com quem operava o bisturi. Conta com treze casamentos consecutivos com cirurgiões plásticos. Consegue enumerar os procedimentos que cada um lhe fez.
O caminho, porém, teve os seus percalços. Uma mulher traída irrompeu pela sala de operações com uma espingarda e manteve a equipa cirúrgica refém, enquanto o marido trabalhava em Selma. O stand-off durou doze horas. Quando lhe pergunto o que pensa sobre o caso, Selma demonstra um falso embaraço.
— Não sei. Dormi o tempo todo. — E mais séria, sem largar os meus olhos, sussurrou: — Que culpa tenho eu que alguém deseje ter a mulher perfeita? — Tocou-me suavemente na perna com um dedo do pé, que espreitava pelas sandálias abertas. Confesso que o toque me arrepiou.
*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945
SOBRE A AUTORA
Rita Santos
Rita Santos nasceu em Lisboa, no ano da passagem do cometa Halley, e jura que um dia ainda vai escrever sobre a data. Quis ser desenhadora, arquiteta, pintora e uma mão-cheia de coisas mais. E se calhar ainda quer ser isso tudo. Uma poliamorosa, portanto. Começou a escrever um livro aos 16 anos, que abandonou porque era uma porcaria. Depois de um bloqueio de uma década, reencontrou-se com a escrita e publicou o seu primeiro conto, «Vermelho Requinte», na Fábrica do Terror. Daí à publicação da sua primeira coleção de contos, 31 Faces de Terror, em nome próprio, foram alguns meses. O cinema, a música, a cultura pop e as oddities fazem parte do seu universo de referências. O romance? Até aos 100 anos, deve dar para escrever um.







