O Faquir

de Edgar Ascensão

 

Os estrangeiros que vinham de fora chamavam-lhe «o faquir». Deliravam ao vê-lo tão hirto, capaz de segurar as lâminas sem as deixar cair durante tanto tempo. 

Foi há quase quatro anos que começou a brincadeira, que rapidamente se tornou num jogo popular entre a comunidade. A competição era feroz. Todos queriam pontuar no cadáver ambulante: homens, mulheres, novos e velhos — sobreviventes e ansiosos por alegrar os dias da povoação. O faquir não dormia. Não parava. Mas também não ia embora.

Todos se recusavam a chamá-lo de zombie, porque toda a gente conhecia o Cletus antes de ele se tornar um morto-vivo. Um homem de muitos nomes, o Cletus. Quando ainda falava, era conhecido por Red. Depois do ataque, no entanto, a criançada já só o chamava de Grey, «o cinzento». E para os de fora, era o faquir.

Deambulava pela quinta, do lado de fora da fortificação, demasiado lento para preocupar o povo. Apenas os incautos teriam de ter o cuidado de não se deixarem morder.

Mais uma faca, mais uma rodada de copos, para gáudio dos residentes. A festa durava a noite toda, para de madrugada se fecharem nas gaiolas de aço e dormirem o sono dos justos.

Até ao momento, contam-se-lhe 32 facas cravadas nas costas e duas na nuca. Ainda nenhuma caiu. Algumas tentativas precipitadas de aumentar a contagem, porém, não chegaram a espetar as lâminas afiadas na carne putrefacta. Essas tombaram ao chão juntamente com os arrojados concorrentes que se achavam capazes demais. Isto porque, de vez em quando, alguém lá se deixa apanhar pelos dentes do faquir, como o pequeno Willie, o filho mais novo da Loretta. Ou, como a criançada agora lhe chama, «Willie Podrezinho».


SOBRE O AUTOR

Edgar Ascensão

Desde sempre ligado às artes visuais, foi pintor, designer e videomaker. Argumentista de umas quantas histórias BD publicadas em diversas fanzines, foi também um dos membros fundadores da Take Cinema Magazine. Durante muito tempo, alimentou o seu blog de cinema Brain-Mixer, onde extravasava toda a sua mente cinéfila. Foi aqui que nasceram os Posters Caseiros, cartazes alternativos de filmes.
Ainda gosta de escrever casualmente, entre o terror e sci-fi. Mas vê o futuro dividido, entalado entre as palavras e as imagens, os contos ou os posters.

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