A Bruxa de Sirol

de Sónia Pedroso

 

Aviziboa, conhecida feiticeira de Sirol, olhou a lama barrenta que escorria para o chão. Com movimentos rápidos, moldou o barro até dele surgir uma forma humana.

Irene trouxera-lhe cabelos e um objecto do homem que queria enfeitiçar. Deixou também um punhado dos seus, para que o arranjo ficasse completo.

A bruxa separou tudo com cuidado e juntou ao boneco de barro os cabelos do homem. Colocou-lhe o pente de osso e pousou-o sobre o cepo, a secar.

As nuvens cobriram o céu até então ensolarado, e um véu fino de chuva caiu, abrindo um arco de cores no ar.

Na cozinha, Aviziboa reuniu os ingredientes do pão mole. Triturou e moeu os cabelos da mulher, juntou-os à massa e bateu-a em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio.

Quando o arco-íris brilhou com mais força, socou a massa com decisão, selando que Tozé pertenceria a Irene, de corpo e de espírito.

Ao engolir a primeira dentada, Tozé caiu desfalecido. Quando acordou, os olhos baços já não viam o mundo — viam apenas Irene.

É por isso que, quando chove e faz sol, as bruxas em Sirol estão a fazer pão mole.

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945

SOBRE A AUTORA

Sónia Pedroso

Sónia Pedroso nasceu em setembro de 1976 e vive com os dois filhos adolescentes. Saloia da Malveira, fez a escolaridade obrigatória no concelho de Mafra. Depois da não entrada na Faculdade de Letras de Lisboa, tirou um curso profissional e foi trabalhar. Atualmente, trabalha como técnica de contabilidade numa empresa de transportes.
Adepta de atividade física, pratica strong e muay thai para sanidade mental.
Leitora compulsiva desde nova, começou a escrever incentivada por um amigo e, desde então, não parou. Para melhorar esta arte, tem feito workshops, formações e clubes de leitura, porque não é de desistir facilmente.

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