O Caracol
de Francisco Horta
Queria ter um caracol, mas a minha mulher não deixava. Então, quando a minha mulher morreu (confesso-me sortudo), e eu fiquei sozinho com o meu pequeno, aproveitei. Era agora. O meu filho também ia adorar.
Comprei um terrário de tamanho razoável, termómetro, substrato natural e musgo, mais duas tacinhas para a comida. Umas pedrinhas e um tronco, também, para fazer de abrigo. Depois, fiz um plano semanal para uma alimentação equilibrada. Segunda a quarta, couve. Quinta, cenoura. Sexta, brócolos. Sábado, alface. Domingo, à vontade. E, claro, numa das taças, a casca em pó de um ovo cozido (o cálcio é fundamental).
Todos os dias, às nove horas, tiro os cocós e borrifo as paredes da caixa com água.
Há que manter a frescura.
O projeto não tem corrido mal. O desafio é manter o miúdo ranhoso, sem febres nem otites. E eu com o antibiótico a acabar.
SOBRE O AUTOR
Francisco Horta
Francisco Horta nasceu em Vila Franca de Xira, em 1987, e foi criado na Subserra. Sonâmbulo, acordou diversas vezes na pedreira, para lá da serra. Durante o caminho de volta a casa, ouvia sussurros que viriam a inspirar as histórias que escreve. Licenciou-se em Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa. Tem como principais influências Richard Matheson e Samanta Schweblin. Vive em Almada, com a mulher, a filha e o filho.







