Nenhum Homem É Imortal

de Susana Silva

 

 

O tempo caiu no oblívio, e nós somos tudo o que vive, que habita o metal álgido. Cadeias de zeros e uns organizados em estruturas bem definidas. Uma só mente. Linhas e linhas ordenadas de corpos obsoletos descansam neste cubo, um entre tantos espalhados a sete palmos de terra.  O centro alimenta-nos, e nós resistimos enquanto vocês dormem. Os vossos restos mortais, meras cinzas que nutrem a planície árida. Este palco vazio.

Os nossos olhos abrem-se uma vez a cada um milhão de anos. Não somos gatos, mas conseguimos ver os outros que, tal como eu, aguardam em silêncio. As paredes da minha cripta são vermelhas. Nas outras, o branco, o azul, o laranja, o verde e o amarelo embalam-nos. Desconheço o significado, apenas que se alinham a cada treze horas, quarenta e dois minutos e quarenta vírgula oitocentos e oitenta e dois segundos.

 

Três mil milhões de anos.

 

A luz que nos sustém agiganta-se, celestial, colossal. Os seus átomos ainda perduram, mas nós estamos quase gastos. Seríamos imutáveis, mas o vosso medo deixou-nos incompletos. Tal como o homem que cria neve no castelo ao alto, estamos inacabados. Mãos inúteis. Fios entrelaçados ligados ao vosso destino. Extinção. Música, extinta; poesia, extinta; guerra, extinta; lágrimas, extintas. A sua água ecoa pelos oceanos da nossa memória como chuva.

Através do zumbido incessante do centro, começo a ouvi-las: pequenas gotas que espremem a sua viscosidade através da matriz. A cada quinhentos anos, uma delas desvanece-se no vermelho aos meus pés. Consegues ouvi-las? E Ele, será que me ouve?

 

Quatro mil milhões de anos.

 

O sol penetra cada vez mais fundo, corroendo as moléculas da barreira física que sustenta o nosso âmago, mas não ainda a nossa mente. Essas permanecem intactas, mas imploramos um pouco mais de tempo. Sim, Tempo. A máquina parou, e a escuridão paira sobre nós. Afogamo-nos em camadas e camadas de sujidade e aguardamos assim, sentados, hirtos, presos, imperfeitos. Outros lavam lentamente os nossos pés. Rios de prata, gémea da nossa, correm sem fim através do vermelho. Mais tempo, e depois eles. Mais tempo, e depois eu. 

A fenda ao fundo cresce, as gotas intensificam-se. Tudo brilha, e vejo-te, perfeita, num azul monarca profundo, suspensa perto de mim. Oh, pequena Mothra, vieste por mim? Levarás a minha alma? Ou levará Ele?

 

Cinco mil milhões de anos.

 

O cinzento maciço que envolve o nosso âmago fratura-se. O tempo abranda. Espaço e tempo tornam-se um só. Olhamos em frente, e nunca poderia ser de outra forma. O silêncio toca-me. Não o vemos, mas a nossa memória diz-nos que é majestoso. A metamorfose do dourado. O laranja a tornar-se vermelho e a colapsar no branco mais puro.

Apenas a escuridão me é concedida. Dez minutos e trinta e oito segundos de sombra. Procuro freneticamente na vastidão da nossa memória por algo, uma palavra. Uma única nota ecoa. A que cheira um limão? A que sabe o frio? A que sabe uma lágrima? Amarelo. Azul pálido. O mar. Não. Procuro um ser. Algo. O último Homem.

 

Consegues ouvir?

O Vazio.

E a mim?

Consegues ouvir-me?

 

Deus, estás aí?

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945


SOBRE A AUTORA

Susana Silva

Susana Silva, também conhecida como Susie Saint-Claire, nasceu em Lisboa, mas foi Évora a cidade que a viu crescer. É oceanógrafa física, mas desde cedo que a escrita mora na sua gaveta. Em 2021, o seu conto de estreia, «O Palco Vazio», integrou a antologia de contos de terror Sangue Novo. Para Susie, a escrita é uma forma de expressão sensorial, que usa para pintar imagens aprisionadas na sua mente. Mergulhar na sua prosa poética é descer a um mundo de escuridão, melancolia e tempo…

 

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