Confissão

De SiN

 

O padre fechava a igreja tarde, já passava da hora. Mas o que haveria mais a fazer fora dali, quando as vidas já não significavam nada? As velas morriam devagar. Havia um silêncio sobrenatural que se interrompia pelo som dos últimos passos, a ecoarem pela capela.

Perto da porta do confessionário, reparou, havia uma sombra ajoelhada. Uma mulher de véu escuro, quieta, curvada.

— A igreja vai fechar — disse o padre com a chave na mão.

— Só preciso de absolvição — devolveu a mulher, e entrou na cabine lentamente, sem esperar pela resposta.

O padre ficou imóvel. A voz dela parecia-lhe familiar. Depois, libertou um suspiro longo e cansado, e seguiu-a até ao outro espaço do confessionário. Sentiu o cheiro da madeira velha, do incenso. 

— Há quanto tempo sem se confessar? — perguntou em tom ritual.

A mulher riu baixinho. Um som seco.

— Desde o meu funeral.

O padre gelou no escuro. Reconheceu a voz, o riso. As mãos começaram a tremer. E a mulher continuou:

— Enterraram-me com flores brancas e com direito a oração, mas esqueceram-se do mais importante. Que eu ainda respirava. Que ainda tinha coração. Também deve ser pecado sepultar alguém vivo, não é?

A madeira rangeu entre ambos. Um cheiro a podre invadiu o cubículo. Pela pequena abertura, o padre conseguiu ver que a mulher levantava o véu, e que, por baixo dele, na sombra, não havia olhos ou nariz, só uma espécie de boca, aberta demais, a sorrir para ele.

Mãos surgiram então sob a porta. Pálidas, cobertas de terra. Dedos magros como as raízes a romperem pelo chão. A mulher voltou a falar, mais perto do que devia:

— O senhor padre sabe o pior do Inferno? Não é o fogo nem a agonia. É descobrir tarde demais que Deus nunca nos ouviu.


SOBRE O AUTOR

SiN

SiN. É assim que todos me conhecem. Talvez devido ao meu gosto pelo que não é normal ou pelo uso excessivo de preto na indumentária. Quem sabe até por ser um pecador, como todos os seres humanos. O que importa é que a idade não importa. E que o nome só serve mesmo para identificar a pessoa. E o que se escreve? Ao critério de cada um. No meu caso, é o que me vai na cabeça, porque a alma há já muito que foi condenada, perdida na armadilha eterna que é o tempo.

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