Takotsubo

de Nuno Amaral Jorge

 

Consta que a primeira menção ou registo bibliográfico de um coração pulsante terá ocorrido há cerca de cinco mil anos, nas páginas do épico de Gilgamesh. Curiosamente, mencionava a dor da perda de Enkidu, um grande amigo. 

Gregos e egípcios qualificavam o coração como o órgão nobre do corpo, e seu regente incontestado. E cerca de 2% das pessoas podem, efectivamente, morrer devido a um coração partido. Nos casos mais raros, uma parte do músculo pode mesmo inchar, como se ameaçasse explodir, numa das mais acidentais e pungentes metáforas da realidade. 

É raro, dizem, como é raro o amor, e igualmente perigoso. Talvez por isso a quisesse poupar, e a minha culpa se tenha agigantado ao ponto de se tornar algo monstruoso. Mas eu não sou um monstro. Não estou alheado da dor dos outros ou dos efeitos das minhas acções. Sei apenas que tanto o amor como a violência podem ser um túnel, no qual vivem as piores manifestações de paixão. Se misturarmos a compaixão, cria-se o sentimento mais perigoso que conheço. 

Quando nos separámos, ela teve um assomo de síndrome focal de coração partido. O mais raro e mortal de todos. E, quando saiu do hospital, ao contrário do que lhe disseram, a condição não ficou resolvida. Ela dizia que tinha corrido bem, que a medicação e o cuidado a tinham ajudado, embora ainda se sentisse miserável. Mas não havia como acreditar nisso. Nada ficou resolvido. Eu olho para ela e vejo. E vejo aquele inchaço no peito, as linhas de desgosto na face. E já não a conseguia ver assim.

Eu não sou nenhum monstro. Só não controlo a minha compaixão. 

A morte dela, assim, foi rápida. O metal entrou no coração, fazendo-o explodir. O inchaço rebentou como uma pústula de agonia emocional. A dor tinha acabado. 

Vejo-a calma, agora, com um sorriso de alívio, emoção à qual me junto com gosto. Finalmente, e para bem dela, o seu coração já não bate. Tenho de admitir, no entanto, que me sabe muito bem. 

 

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945


SOBRE O AUTOR

Nuno Amaral Jorge

Nuno Amaral Jorge nasceu em Lisboa, no ano de 1974. É jurista, fotógrafo amador e escritor freelance. É guionista de BD, publicou contos em várias antologias, dois romances e dois livros infantojuvenis. Destaca títulos como os romances As Três Mortes de Um Homem Banal e A Passagem, bem como o conto «Coelho Branco», publicado na antologia IN/SANIDADE, e com o qual ganhou Grande Prémio Adamastor de Ficção Fantástica em Conto – 2024.
Stephen King, Julian Barnes, Rosa Montero, Neil Gaiman e Alan Moore são algumas das suas referências.
Vive em Carnaxide com a sua companheira, os seus três gatos, e é um feroz defensor do maximalismo da liberdade de expressão, artística ou de qualquer outra tipologia.

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