O Atraso da Prata

de Jéssica Catoja

 

O casarão dos tios, nos arredores de Sintra, cheirava a humidade e a cera de abelha barata. Mafalda tinha ficado com o quarto do fundo, onde o inverno, aparentemente, tinha decidido morrer. A mobília de mogno escuro engolia a pouca luz filtrada pelos salgueiros gementes lá fora, mas o pior era o espelho. Tinha uma moldura pesada, trabalhada com anjos barrocos de feições grotescas, e uma mancha de azinhavre no canto inferior esquerdo que parecia crescer como uma ferida.

Na primeira vez, Mafalda culpou o cansaço. Tinha passado o dia a carregar caixas de cartão e a separar as roupas da falecida tia. Quando se colocou em frente ao espelho para escovar os cabelos, antes de se deitar, teve a sensação de que o seu duplo na parede tinha iniciado o movimento um milissegundo depois dela. Um sussurro de hesitação no vidro. Ela parou. O reflexo parou. Só pode ser sono.

— Estás a dar em doida — murmurou para o quarto vazio. O som da própria voz veio estranhamente abafado, como se tentasse falar debaixo de água.

Na segunda noite, a dúvida transformou-se numa certeza, havia algo de errado com o espelho.

Mafalda lavava o rosto na casa de banho. A água estava fria, quase dolorosa na pele. Ao levantar a cabeça e passar a toalha pelos olhos, fixou o espelho e pestanejou. O reflexo demorou o tempo de uma respiração curta para fazer o mesmo. Não era uma ilusão ótica. Havia uma latência, uma folga bizarra no tecido da realidade. Como uma transmissão de televisão com um sinal fraco, vindo do fundo de um poço.

O ar no quarto aparentava estar mais espesso. Cada vez que olhava para a prata, sentia os pelos da nuca a erriçar. A criatura do outro lado imitava-a com precisão, mas o atraso estava a aumentar. Já não era uma fração de segundo; era quase um segundo inteiro. Se Mafalda sorria, a rapariga do espelho permanecia séria antes de curvar os lábios num esgar idêntico.

O medo tem esta mecânica: primeiro desconfiamos dos sentidos, depois desconfiamos do mundo, e finalmente desconfiamos de nós próprios. Quem ditava as regras? Era ela quem se movia, e o espelho que a copiava, ou seria o oposto?

Na quarta noite, Mafalda decidiu não olhar. Cobriu o espelho do quarto com um lençol velho. O silêncio da casa, porém, era massacrante, um silêncio que exigia ser preenchido. O lençol escorregou a meio da madrugada, caindo no chão de tábua corrida. Mafalda, como que o pressentindo, acordou sobressaltada.

O luar batia diretamente no vidro.

Com o peito a arquejar, Mafalda sentou-se na cama. O quarto estava gelado, a respiração dela formando pequenas nuvens de vapor no ar. Olhou de soslaio para a moldura barroca. No reflexo, a cama estava vazia.

O pânico foi um soco no estômago. Ela estava ali, sentada, com os lençóis puxados até à cintura, mas o espelho mostrava apenas a colcha de retalhos perfeitamente esticada, intocada, mais uma fotografia do que um reflexo.

Passaram-se cinco segundos de uma agonia suspensa, onde o tempo parecia ter colapsado. Depois, lentamente, uma figura começou a erguer-se debaixo das cobertas do espelho. Movia-se com a lentidão de um cadáver a libertar-se do seu rigor. Era a própria Mafalda. A réplica sentou-se na cama de vidro, virou a cabeça rigidamente e fixou os olhos nos da Mafalda do mundo real.

O reflexo não estava a imitá-la. 

Mafalda tentou levantar-se, fugir para a porta, mas as pernas não responderam. O medo tem o peso do chumbo. Ficou paralisada na própria cama.

No espelho, a outra Mafalda deslizou para fora dos lençóis. Caminhou até à moldura, aproximando-se do vidro até que o seu hálito pudesse embaciar a superfície. Esta, no entanto, permaneceu limpa, cristalina. A criatura ergueu a mão direita e pousou-a contra o vidro.

Movida por um magnetismo horrível, incapaz de resistir ao absoluto terror que a dominava, Mafalda viu-se a sair da cama e a caminhar até ao espelho, colocando a mão esquerda na superfície. Os dedos de carne e osso tocaram o frio cortante do vidro. Do outro lado, as pontas dos dedos do reflexo alinharam-se perfeitamente com os seus. A criatura sorriu.

Não era o sorriso de Mafalda. Era rasgado demais, amplo demais, mostrando dentes que se assemelhavam a lâminas afiadas pela penumbra.

Com um movimento violento e mecânico, o reflexo colou o rosto ao vidro e sussurrou. Mafalda não ouviu o som com os ouvidos, mas sentiu as palavras vibrarem diretamente dentro do crânio:

— Obrigada por me deixares guiar.

Num espasmo de pura adrenalina, Mafalda conseguiu recuar, quebrando o contacto. Virou-se de costas para o espelho, caindo de joelhos no chão, tapando os ouvidos e soltando um grito que rasgou a noite de Sintra. Ficou ali, a soluçar contra o chão bafiento, bloqueada e sem reação, esperando que algo a resgatasse daquela loucura.

Quando finalmente conseguiu levantar-se, de músculos doridos e a garganta seca, sentiu-se estranha. O corpo estava pesado, com movimentos um pouco rígidos, como se estivesse a operar uma máquina complexa através de alavancas distantes.

Caminhou até à porta para sair daquele quarto de uma vez por todas. Mas, por instinto, antes de rodar a maçaneta, olhou para trás, para o espelho.

No reflexo, a rapariga de cabelos desalinhados caminhava em direção à porta do quarto de vidro, estendia a mão e rodava a maçaneta, abrindo-a e saindo para o corredor escuro. O espelho ficou vazio, mostrando apenas as paredes nuas e a cama desfeita.

Mafalda, a verdadeira Mafalda, continuava parada no meio do quarto real. Tentou mover um pé. Não conseguiu. Tentou gritar, mas a boca nem sequer se abriu. Estava simplesmente ali, de pé, perfeitamente imóvel, a olhar para o espelho vazio. À espera de que a Mafalda do espelho voltasse para lhe dizer o que fazer a seguir.


SOBRE A AUTORA

Jéssica Catoja

A Jéssica passou anos a perder o sono com boas histórias de terror, até decidir arriscar e começar a criá-las. Encarando a página em branco como o seu novo labirinto psicológico, divide o seu tempo entre o chá quentinho, uma boa leitura e uma forte presença nas redes sociais, onde partilha o seu amor pelo macabro.

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