Agora Sim, o Início

De João Miranda

 

Recebi a notícia da morte de Ethian com surpresa. Não posso dizer que foi um choque, um obstáculo difícil de ultrapassar, mas foi mais um pequeno pilar da nossa infância, da nossa base, que colapsou. Recordo com agrado alguns momentos de conversa, ainda que nem sempre dirigidas a mim, para os meus, naquele local de tantos anos. A minha pequena homenagem era essencial.

Percorri os metros que me restavam com demora, ninguém seguia com prazer para um destino daqueles. A capela, ainda que recente, era um local sinistro com quatro salas para velório, uma maior do que as restantes, curta para as necessidades de Estige. O hall de entrada demorava-se até à sala principal, à esquerda, enquanto as restantes foram atiradas para o lado direito do edifício lúgubre. Encontravam-se abertas, vazias, aguardavam a sua vez de velar um falecido. 

Encontrei o caixão em lugar de destaque, na sala principal, entre várias filas de cadeiras e o altar. O corpo descansava num caixão comum diminuído por uma tampa refrigeradora, uma espécie de arca transparente que se moldava na perfeição ao caixão. A vaga de calor sentida fora do espaço da capela assim o obrigou. Ethian vestia um fato preto elegante, sapatos a condizer, bem tratados, diria novos, e uma gravata branca como a camisa. Ao contrário do habitual, os braços estavam estendidos ao longo do corpo, as mãos encontravam-se abertas e não seguravam qualquer objeto. O cabelo, penteado para trás, ao estilo dos anos setenta e oitenta, estava perfeito. O frio ajudaria a manter todos os cabelos alinhados.

Apercebi-me do torpor que me tinha invadido minutos após a entrada. Já desperto, observei uma sala grande, vazia, triste seria sempre. Não via ninguém. Era o único na sala, o único na capela. O Sol ia alto, a temperatura também. Não havia necessidade de me sentar, tinha espaço suficiente para contemplar o homem. Não o via há muitos anos, não me recordava de um paladino da vida saudável, do exercício e boa alimentação. Pelo contrário, e admitia que a memória me pudesse ter atraiçoado, recordava-me de excessos, vários momentos de excessos. Nada disso importava agora.

Aguardei um pouco na entrada da capela. Sentia-me incomodado por estar na sala com o corpo inerte e resolvi deslocar-me os metros suficientes para alcançar o ar quente do exterior. Olhei para o relógio duas vezes; decidi sair após o terceiro erguer de pulso. Não tinha qualquer vontade de regressar a casa, por isso caminhei durante um longo bocado entre os prédios mais velhos de Estige. Obriguei-me a voltar a casa, tomar um banho, livrar-me das roupas húmidas de suor e preparar o resto do fim de semana.

Consegui passar o resto da tarde sem pensar no velório. Fiz planos, tratei de coisas rotineiras em casa e resolvi jantar cedo. Saí pouco depois de o Sol se deitar, tempo suficiente para o calor se dissipar e ver as ruas preenchidas de pessoas. Dirigi-me diretamente para a capela numa cidade com outra vida, barulho, sons e luzes de carros e cafés. Não era o ambiente propício para descansar, mas servia para descontrair.

Cheguei, enfim, e parei à entrada. Não esperava o calor da capela naquele ameno início de noite. Olhei para todos os lados e descobri poucos espaços livres. Todos tinham saído de casa para visitar Ethian e prestar uma última homenagem. Percorri os curtos metros até à entrada da sala onde estava o corpo, mas não encontrei familiares ou velhos conhecidos da infância. Vi duas senhoras, de lenço na mão, com a emoção estampada no rosto, e o meu corpo fez questão de se deslocar até elas. Parei e não consegui encontrar qualquer imagem daquelas duas mulheres nas minhas memórias. De qualquer das formas, estava ali para apresentar as minhas sinceras condolências, e assim o fiz. Uma das senhoras levantou-se, agradeceu, num aperto de mão firme, ao contrário da mulher que se deixou estar sentada. Eram curtos momentos de angústia que demoravam uma eternidade. Fiz o que pretendia, mas deixei-me estar um pouco mais na sala, na esperança de encontrar alguém que validasse as minhas memórias. Encontrei várias pessoas, mas ninguém do meu passado.

Mantive-me num canto, atento às entradas e saídas, e aguardei. Alguém fechou as portas ao calor da noite, e senti, por fim, o efeito do ar condicionado percorrer o interior do edifício. Vi movimento perto do caixão, a tampa refrigeradora foi retirada, a dor já tinha corpo para tocar. As conversas pararam nesse momento. Ouvi murmúrios, observei alguma agitação perto do caixão, obriguei-me a manter a distância e a deixar a proximidade para a família. Fiquei surpreendido com uma mulher que me tomou o braço, disse o meu nome e agradeceu a visita. De olhos chorosos, encaminhou-me para perto do caixão. Não a reconheci; seria familiar de Ethian, os anos passados dificultavam a lembrança. Fiquei ao lado do caixão, não me sentindo confortável por estar tão perto. Pareceu-me que todos se acercavam mais do corpo ao mesmo tempo que as minhas pernas cediam. Em segundos, fiquei de joelhos, sem possibilidade de me levantar. Mãos fortes seguravam-me os ombros e braços, todos os olhos pousavam em mim. Não conseguia falar, não conseguia reagir, só conseguia gritar. Mas ninguém me ouvia. Ninguém irá ouvir.

Até hoje, quarenta anos depois, não sei como tudo sucedeu. Revivo algumas vezes estas horas: sou o fantasma de mim próprio, o fantasma do meu último dia. O choque passado não me deixa recordar os últimos momentos. Como em tantas vezes, a memória daqueles instantes surge porque consigo ver todo aquele dia como uma peça de teatro. Ninguém reagiu quando Ethian, lentamente, saiu do caixão. Foi-lhe dado todo o espaço necessário para se abeirar do meu corpo petrificado. Já não era preciso qualquer mão para me deter nessa posição. Naquele momento, apenas as lágrimas demonstravam que o meu corpo ainda funcionava. Os momentos seguintes transformaram-se no que sou hoje.

Foi o meu último dia de calor.


SOBRE O AUTOR

João Miranda

Uma das mais prazerosas lembranças da infância de João Miranda, da liberdade de tempo vivida até aos seis anos, é o tempo passado entre jornais e rádio, entre a tentativa de aprendizagem precoce da leitura, e os relatos e histórias contadas no pequeno aparelho. O gosto pela leitura e pela escrita desenvolveu-se a partir desses tempos já longínquos, um passado bem presente no que vai escrevendo aqui e ali. Filho da década de oitenta, formado na área de Humanidades e de Ciências Sociais.

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