Dama do Rio
De Guilherme Mouro
Quando era pequeno, costumava dar passeios na floresta com o meu avô. E, durante esses passeios, costumávamos passar por um rio. Sempre que por lá passávamos, ele contava a mesma história.
«Uma vez, um lenhador estava a passar por aqui quando, por acidente, deixou cair o machado ao rio.
Ele olhou fixamente para a água à procura do machado, até que algo começou a subir das profundezas do rio. O lenhador afastou-se com medo.
Uma linda mulher, de cabelos azulados e longas vestes brancas, surgiu das águas. Pisando a superfície da água, começou a caminhar na direção do lenhador. Nas mãos, trazia um machado de ouro, reluzente e encantador.
Perguntou então ao lenhador se era aquele o machado que ele tinha deixado cair. O lenhador, humildemente, respondeu que não, que o seu machado era de ferro, velho e enferrujado.
A Dama do Rio sorriu para o lenhador e voltou para o interior das águas. Quando voltou, trazia o machado de ouro e o machado do lenhador. Entregou-lhe ambos e disse que, pela sua honestidade, lhe iria devolver o seu machado, mas oferecer-lhe também o de ouro.»
Eu gostava da história, e sempre a guardei com carinho. Assim como guardava todas as memórias que tinha com o meu avô.
Anos depois, o meu avô foi diagnosticado com cancro. Ao visitá-lo, pediu-me para darmos um passeio. Um passeio na floresta, como fazíamos antigamente.
Quando estávamos a passar pelo rio, ele contou-me novamente uma história, mas desta vez não era a mesma.
«Quando o lenhador chegou à sua aldeia, contou aos amigos o que tinha ocorrido, que naturalmente ficaram fascinados pela Dama do Rio.
Nessa noite, um homem aproximou-se das águas, com um carrinho de mão. Depois, deitou o seu conteúdo para dentro do rio e esperou pela Dama. Ela emergiu das águas, mas diferente.
Estava completamente loira e desprovida das vestes. Perguntou ao homem se era ela quem ele perdera no rio. Ele disse que não, e a Dama voltou para o interior das águas gélidas.
Quando voltou a sair, arrastava o corpo pálido e molhado de uma mulher. A Dama disse que, pela honestidade do homem, poderia ficar com ambas. O homem voltou então a colocar a mulher no carrinho de mão e seguiu rumo a casa, enquanto ouvia os pés nus da Dama a acompanhá-lo.»
Depois da caminhada, voltámos para casa. Quando entrámos, sentimos o cheiro do almoço pronto, obra da minha avó, claro. Ao adentrar a cozinha, vi aquela cabeleira loira que reconheceria em qualquer lado. A minha avó, jovem e enérgica, virou-se para nós e disse que nos sentássemos, que o almoço ia ser servido.
Poucos dias depois, o meu avô morreu. E a minha avó desapareceu. Na última vez que foi vista, estava completamente nua, a entrar nas águas do rio.
Esta noite, vou levar o meu avô para um passeio na floresta. Espero que, ao voltarmos, ele seja capaz de me contar outra história.
SOBRE O AUTOR
Guilherme Mouro
Guilherme Mouro nasceu em 2006 e reside no concelho de Vila Franca de Xira. Estreia-se na escrita, utilizando a ficção como depósito da sua criatividade e como meio para explorar o que de mais perturbador e aterrorizante existe na mente humana. Fascinado pelo lado sombrio da psique, procura, com os seus textos, dissecar medos profundos e contribuir com novas perspetivas para o panorama do terror em Portugal.







