Conquanto o Interesse Histórico dos Ossos Mui Nobres da Baleia-Neptuna
de Carolina Fidalgo
— Para efeitos de turismo nacional, só temos permissão de vos mostrar a ala dos ossos dormentes dos animais e, a posteriori, as prateleiras da morte das muralhas coralinas. Odaliscas, entrai.
Os aquários recheados exibiam os seus intestinos cerúleos. As odaliscas olhavam em redor com a emoção a aguar-lhes as bocas moluscas. Eram pequeninas, e cada uma dava a mão a uma outra. Seguiam em fila indiana, com as suas saias e véus de chiffon violáceo, escoltadas por um monumento de meia-idade. O guia devia ter cerca de duas centenas de quilos dispostos pelas pregas cutâneas. Falava com pompa, esculpindo as palavras como cenouras de opala, melões de safira. As odaliscas riam-se dele discretamente.
— Aqui, odaliscas, podeis constatar a presença iluminadíssima do esqueleto adornado com arpão da Baleia-Neptuna. Foi, em tempos, uma baleia mui nobre, dilacerada a posteriori por Carlos Cardaleiro, alfaiate real. Uma tragédia que, decerto, bem conheceis das vossas aulas de História Marítima.
Uma das odaliscas bateu ao de leve no ecrã diamantino do mostrador aquoso que continha as excelsas sobras ósseas. A superfície ondeou como gelatina.
— Requisitamos as vossas mais recatadas morais. Os nossos mostruários são de fácil ofensa. Fazei o favor de arrecadar as mãos.
A odalisca travessa não fez caso. Soltou uma risadinha e tirou um palito do bolso. Era muito dentosa, já lho haviam dito. Um cemitério sobrepovoado de lápides de esmalte tortas. Muito dentosa e espaçosa ao nível gengival. Serviu-se do paliteiro que sempre trazia no bolso.
— O que é que estás a fazer, Xavierina? — procurou-lhe a amiga-odalisca a quem dava a mão. — Não faças…
A amiga-odalisca era um pouco esverdeada e não se afazia à desobediência. A odalisca Xavierina não fez caso. Ergueu o palito entre unhas queratinosas e, inchada de prazer, trespassou a membrana de ágar-ágar que envolvia os ossos da Baleia-Neptuna.
Num ápice, lâminas de osso vazaram-se entre os corpinhos de chiffon. Um caldo de colagénio envolveu-as e revestiu-as como faixas de múmia. Era morno — estava vivo. As odaliscas chiaram antes de as suas boquinhas serem sepultadas. O guia, enorme, flutuou por alguns instantes à superfície do mar espessante, com os braços a agitarem-se:
— Ah… Ah… Que será do nosso património? A posteriori…
Os seus gemeres apagaram-se quando uma vértebra lombar lhe assentou na boca e se foi plantar na parte mais tenra da garganta. A coroa dos dentes acendeu-se num pulsar turquesa.
A ala dos ossos dormentes solidificou numa fatia de baleia-odalisca.
Desde então, está interdita a visitas de turismo nacional.
*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945
SOBRE A AUTORA
Carolina Fidalgo
Nasceu em Coimbra em 1992, mas cresceu entre a Gardunha e a Serra da Estrela. Estudou Línguas Modernas na Universidade de Coimbra, tem um mestrado em Literatura e outro em Estudos Editoriais. É professora de Português. Já morou na Escócia e na China. Agora, vive na Suécia.







