Parafilia Naufragada

de Leonor Hungria

 

Ela tinha-lho pedido. Uma obsessão, nascida da sua carnalidade desviante, que não concebia adiar por mais tempo. 

Atílio amara aquele corpo e retirara dele incomensurável prazer. Agora, porém, não lhe despertava qualquer luxúria; estava longe de o arrebatar de paixão. As curvas voluptuosas de Eliane tinham-se perdido em excrescências vagas e crepusculares. Contemplava o seu amor devastado e percebia que se perdera a adoração. Restava a repulsa.

As idas ao médico, as consultas intermináveis no hospital, as sezões e as pastas regurgitadas que ele tinha de limpar. O vómito era fétido, mas ainda assim cheirava ao interior dela, envolvendo-o num odor acre e persistente, enchendo-o de uma fúria silenciosa. Chegava a odiá-la, em algumas ocasiões. Culpava-a pela crescente dependência, pela fragilidade inatural, pelo fedor a morte com que lhe empestara a vida, conspurcando-lhe o amor e toldando-lhe o futuro.

Eliane tinha sido destemida, quase agressiva. Os seus vorazes ímpetos carnais roçavam o escabroso, manifestando-se em qualquer momento, em qualquer lugar. Atílio perdera a conta aos momentos roubados a amigos, família e eventos sociais, na satisfação da luxúria dela. E da sua também. Mas a sua adorada, antes tão orgulhosa e forte, tão independente, era agora um navio naufragado, com os destroços batidos pelo mar revolto da doença que lhe minava o corpo. 

Deitada na mesa da sala, nua, Eliane, olhava-o com uma paixão mesclada de súplica.

— Come-me — murmurou numa inflexão sensual —,  mas deixa de lado os tumores.

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945


SOBRE A AUTORA

Leonor Hungria

Leonor Hungria nasceu em Lisboa, no dia 6 de novembro de 1977, arruinando assim os planos da sua mãe de ver o último episódio da telenovela Gabriela. Foi fonte de mais alguns aborrecimentos durante a infância: era habitual os pais encontrarem-na a desenhar nas paredes da casa, especialmente debaixo do lavatório, onde os gatafunhos passariam despercebidos. Ou assim ela o pensava.
A sua paixão pelo desenho, pelos livros e pela escrita cresceu na adolescência, o que fez dela uma «croma» sem remédio.

O seu corpus de trabalho abrange os géneros neovitoriano, gótico e horror, sempre com algum humor. Negro, claro.

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