O Lugar da Mesa
de Marta Vale
Em minha casa, sempre se pôs um prato a mais. Somos só duas, eu e a Vera, mas a mesa põe-se para três: dois pratos de comer e um terceiro à cabeceira, com copo, guardanapo e talheres, que ninguém usa e ninguém comenta.
O prato e os talheres tinham de ser de prata. Porquê, ninguém sabia; nem fazia falta saber. Aprendi com a minha mãe, que aprendeu com a dela. A bisavó, contava-se lá em casa, já punha três pratos a mais nos últimos anos, e ria-se quando lhe perguntavam porquê.
Em pequena, eu julgava que todas as casas eram assim. Mais tarde, convenci-me de que era costume da aldeia, uma dessas delicadezas antigas para a potencial visita que pudesse chegar, inesperadamente. Um dia, deixei de precisar de explicação. Os gestos herdados são como os móveis herdados: ocupam o seu lugar e não se lhes pergunta nada.
Foi a Vera quem perguntou, claro, num jantar de fevereiro. Tem seis anos e, aos seis anos, ainda se pergunta tudo.
— Mãe, para quem é o prato?
Ia responder que era para as visitas. Era no que me tinha convencido a acreditar. Não foi isso que me saiu. O que me saiu foi que o prato era da casa, a frase inteira, espontânea, como se a trouxesse entalada desde antes de mim. Para a Vera, a explicação foi suficiente. Para mim, não. Nessa noite, depois de a Vera adormecer, liguei à minha mãe, que vive na aldeia, perto da praia da Salmoura, sozinha desde o inverno.
— Mãe, o prato da cabeceira. Para quem é?
Do outro lado, fez-se um silêncio comprido, daqueles em que se ouve a casa em som de fundo: o relógio, o frigorífico, o vento na persiana.
— Isso não se pergunta! — disse ela por fim. — Põe-se. Cada casa alimenta o seu.
— O seu quê, mãe?
Pareceu-me sentir no rosto o longo suspiro que ela deu.
— Não deixes de o pôr, filha. — E desligou, coisa que a minha mãe não faz.
Devia ter obedecido. Mas eu sou uma pessoa que exige explicação para tudo, e, se não há explicação, não existe, simples. Durante duas semanas, ainda pus o prato, cada noite com mais irritação, aquela loiça lavada em vão, a ocupar um lugar na mesa pequena. Numa quarta-feira ao fim do dia, cansada do trabalho e de todas as perguntas da vida, decidi pôr dois pratos, e sentei-me.
A Vera veio para a mesa, olhou para a cabeceira vazia e não disse nada. Foi o jantar mais calado que tivemos. Ela mexia na comida sem a levar à boca, cabisbaixa, e, a dada altura, pediu licença e foi para o quarto. Dormiu mal. Eu também. A meio da noite, ouvi, ou sonhei que ouvia, uma cadeira a arrastar devagar no chão da cozinha, com o cuidado de quem não quer acordar ninguém. E depois, ainda mais baixo, durante muito tempo, o som de alguém a mastigar. Foi tudo um sonho, tentei convencer-me a mim própria.
De manhã, a cadeira da cabeceira estava afastada da mesa. O pão, que eu deixara fechado no saco, estava fora dele, com a côdea partida ao meio, como se alguém tivesse começado a abri-lo com as mãos e desistisse. Disse a mim mesma que tinha sido eu, com o sono, num primeiro episódio de sonambulismo. Quase acreditei.
Aguentei nove dias sem pôr o prato. Sei que foram nove porque os contei, e devia ter percebido logo aí alguma coisa: ninguém conta os dias de uma coisa em que não acredita. As noites foram ficando mais compridas e escuras, o leite azedava antes do prazo, a cozinha, mesmo com o aquecedor, tinha uma zona fria à cabeceira da mesa, como as correntes frias no mar. E a Vera começou a parar à porta da cozinha antes de entrar, a olhar para dentro como quem espera que lhe seja concedida autorização para a deixarem passar. Uma vez, ouvi-a falar baixinho no corredor. Perguntei com quem falava. Encolheu os ombros.
— Com o senhor que tem fome.
As crianças dizem coisas… Mas fiquei o resto do dia com uma memória a fazer-se e a desfazer-se, como um vulto atrás de vidro fosco: eu, pequena, a falar para a cabeceira da mesa, e a minha mãe a corrigir-me sem levantar os olhos do prato. À mesa, não se incomoda quem come.
Nessa noite, pus outra vez o terceiro prato, o copo, o guardanapo, os talheres de prata. Não aconteceu nada, e foi isso que me desassossegou: o nada voltou a instalar-se na casa como um hóspede educado. Na manhã seguinte, o guardanapo da cabeceira apareceu dobrado num triângulo pequeno, de pontas certas. Eu não sei fazer aqueles triângulos. Ao final do dia, a Vera jantou a rir-se, a zona fria desfez-se como se nunca tivesse existido. A primavera passou assim, com a casa em paz. Nunca mais falei do assunto com a minha mãe. Passámos a falar do tempo, das atividades da Vera, dos mexericos da aldeia. Há conversas que se tornam rotina só para que as outras não tenham espaço.
Ontem à noite, a Vera pediu-me para pôr a mesa sozinha. Deixei, porque é assim que se aprende. Da sala, ouvi-a abrir a gaveta dos talheres, contar garfos em voz baixa, arrastar o banco para chegar ao armário dos copos. Quando entrei na cozinha, a mesa estava posta com um cuidado que me apertou o peito: os guardanapos dobrados em triângulos pequenos, de pontas certas, os talheres alinhados por dedos de seis anos.
Tinha posto cinco pratos.
— Vera, somos duas. Com o prato da casa, três. Porquê cinco?
Ela ajeitou o último garfo, sem pressa, e olhou para mim com a cara paciente de quem explica uma coisa simples a quem custa a entender.
— O quarto é o do amigo da avó. Ele diz que, lá em casa, já ninguém lho põe.
— E o quinto?
A Vera puxou a cadeira da cabeceira e sentou-se ao lado dela.
— É o da avó. Ele trouxe-a com ele.
No corredor, o telefone começou a tocar.
SOBRE A AUTORA
Marta Vale
Marta Vale escreve ficção breve, com predileção pelo suspense e pelo inquietante doméstico: casas que guardam segredos, pessoas que sabem mais do que dizem, finais que não avisam. Vive em Portugal e publica os seus contos em martavale.substack.com. «O Lugar da Mesa» é a sua primeira submissão à Fábrica do Terror.







